Os oceanos estão em uma crise cada vez mais grave que exige ação global urgente, alertou um importante relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta segunda-feira (8), com os mares aquecendo e subindo mais rápido, a cobertura de gelo diminuindo e os ecossistemas marinhos sob pressão crescente.
Resultado de cinco anos de trabalho de 600 cientistas do mundo todo, o documento detalha o impacto crescente das mudanças climáticas, da poluição e da pesca predatória em nossos oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta.
“O oceano é a base da vida na Terra. Mas sua saúde está em grave risco, à medida que ecossistemas e habitats se aproximam ou ultrapassam pontos críticos de ruptura”, afirmou a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA, na sigla em inglês) da ONU.
Os oceanos desempenham um papel fundamental para o planeta, regulando o clima e alimentando bilhões de pessoas.
O relatório foi divulgado poucos dias depois de o governo Donald Trump, presidente dos EUA, anunciar que vai remover centenas de instrumentos científicos de águas profundas usados há uma década para monitorar os efeitos das mudanças climáticas nos ambientes marinhos.
“O sistema de monitoramento de águas profundas é uma parte extremamente importante do nosso monitoramento global e da nossa compreensão do oceano”, disse à AFP Ian Butler, ecologista marinho na Austrália e coordenador conjunto do grupo de especialistas da WOA. “Sua remoção deixaria uma enorme lacuna em nossa ciência oceânica de longo prazo.”
O documento alerta para “uma crise cada vez mais grave, à medida que as mudanças climáticas, a poluição, a pesca predatória e a perda de biodiversidade colocam os sistemas oceânicos sob forte pressão”.
As conclusões do relatório “exigem ação urgente, por meio de uma cooperação multilateral mais forte, maior ambição e decisões fundamentadas na melhor ciência disponível”.
A WOA saudou a entrada em vigor, em janeiro, de um tratado da ONU para proteger e usar de forma sustentável a vida marinha em águas internacionais, afirmando que “marca um marco histórico para a gestão dos oceanos e a cooperação multilateral”.
“Não podemos continuar tratando o oceano como se fosse ilimitado”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, em comunicado. “Precisamos construir uma nova relação com o oceano: fundamentada na ciência, enquadrada pelo direito internacional e baseada na responsabilidade compartilhada.”
Aquecendo e subindo mais rápido
O relatório, que abrange principalmente o período entre 2018 e 2023, traça um quadro alarmante do estado dos oceanos.
Cerca de 16% do aumento total de calor dos oceanos registrado desde 1955 ocorreu apenas de 2018 para frente, aponta o relatório.
Os oceanos absorveram mais de 90% do excesso de calor e 30% do CO2 liberado na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis.
À medida que as águas aquecem, elas se expandem, contribuindo para a elevação do nível do mar, juntamente com a água do derretimento de geleiras e mantos de gelo.
“O nível do mar continua a subir em ritmo cada vez maior”, aponta o relatório, segundo o qual o aumento passou de 2,0 milímetros por ano antes de 2015 para 4,3 mm em 2023.
Embora milímetros possam parecer pouco, eles se multiplicam rapidamente, disse Butler.
Gelo derretendo
O oceano Ártico pode ficar sem gelo durante meses de setembro até meados do século, com as primeiras condições desse tipo possíveis na década de 2030 em todos os cenários de emissões, aponta o relatório.
“Estamos seriamente considerando um oceano Ártico sem gelo durante parte do ano dentro de 10 ou 20 anos”, disse Butler.
O derretimento do gelo no polo norte também está remodelando a geopolítica, abrindo rotas marítimas antes inacessíveis e intensificando a competição entre grandes potências, incluindo Estados Unidos, Rússia e China.
No polo Sul, o gelo marinho antártico, que havia aumentado gradualmente entre 1979 e 2015, declinou rapidamente desde 2016.
Ecossistemas marinhos
As mudanças climáticas também estão remodelando a vida marinha, com algumas espécies de peixes migrando para águas mais frias ou profundas para sobreviver.
“Algumas não têm futuro algum porque não têm para onde ir”, disse Butler.
Os recifes de coral estão entre os ecossistemas mais ameaçados.
Ondas de calor marinhas e tempestades repetidas “deixam pouco tempo para recuperação e estão empurrando os recifes para o colapso”, disse o relatório.
Eventos de branqueamento desde 2018 causaram mortalidade generalizada de corais, com a WOA alertando que 90% dos recifes podem desaparecer se o aquecimento ultrapassar 1,5°C acima dos níveis pré-industriais —elevação de temperatura que já temos visto recentemente.
Poluição por plástico e mineração
O relatório pediu uma redução na produção de plásticos —uma questão paralisada nas negociações internacionais.
A cada ano, 52,1 milhões de toneladas de resíduos plásticos são despejadas no oceano, contribuindo para um total estimado de 24,4 trilhões de partículas de microplástico.
Sabe-se agora que os microplásticos afetam mais de 4.000 espécies marinhas.
O relatório destacou também preocupações crescentes sobre a mineração em águas profundas e pediu uma resposta internacional coordenada.
Embora a exploração para mineração em águas profundas esteja bastante avançada, nenhuma empresa ou país iniciou a produção em escala comercial.
Críticos temem que ela sufocaria a vida marinha com resíduos e que o ruído de maquinário pesado perturbaria as migrações oceânicas.
“Este relatório deve servir como um alerta urgente para que os governos ajam para proteger o oceano”, disse o grupo ambientalista Greenpeace em comunicado.
noticia por : UOL
