Cirque du Soleil, com novo 'Alegría', traz ao Brasil duelo entre valores antigos e atuais

A morte de um rei leva um reino distante à disputa. De um lado, um bobo da corte cobiça o trono junto de aristocratas egoístas. Do outro, jovens militantes se juntam para enfrentar o conservadorismo.

Esse duelo entre o velho e o novo não é inédito. O Cirque du Soleil concebeu “Alegría” ao celebrar dez anos, em 1994, e fez do título um sucesso, com números mirabolantes que firmaram o estilo do grupo e uma música-tema que chegou até o Grammy.

Em agosto, o espetáculo retorna a São Paulo com uma versão repaginada, dois anos depois de “Crystal“, primeiro musical no gelo da companhia, vir ao Brasil. O exagero barroco dá lugar a figurinos leves, batidas eletrônicas e projeções modernas que alimentam um cenário interativo.

O projeto revê o show clássico e, apesar de ingressos entre R$ 480 e R$ 1.475, busca proximidade com todos os setores da tenda. É o que diz o palhaço Thiago Andreuccetti, um dos sete brasileiros do projeto. Em cena, o paulista e um parceiro contextualizam o embate e aliviam a tensão de coreografias perigosas.

No processo, brigam, fazem as pazes e dividem piadas com a sua amizade imperfeita. “A inspiração vem das emoções humanas”, afirma o artista, que dedicou anos ao teatro antes de se juntar à trupe.

“O público se aproxima por causa das fraquezas. O palhaço é quem fracassa, tropeça e não está apto a certas conquistas. Como os números são de tirar o fôlego, elevam os humanos a um estado divino, é natural que as pessoas se identifiquem com esses tontos.”

Apesar da narrativa consagrada, são os saltos dos trapezistas, giros velozes em bambolês, corpos de elasticidade inimaginável, bastões flamejantes e faixas que levantam dançarinos que se destacam em “Alegría”.

Encenações do tipo estão no cerne da iniciativa canadense há mais de quatro décadas, quando a criação do Cirque bebeu da onda de megashows e se propôs a rever o picadeiro como um pilar do entretenimento.

Hoje, há figuras do mundo todo entre os responsáveis pelas apresentações musicais —as de “Alegría”, inclusive, usam uma banda ao vivo—, pelo “Cirquish”, dialeto especial que costura idiomas diferentes e palavras inventadas, e pelas acrobacias que impressionam milhares de espectadores.

Dessa vez, as últimas ocupam uma enorme coroa de espinhos, onde o trono abandonado permanece no topo e vários trampolins se escondem sob o chão. O cenário e as danças, aliás, se adaptam conforme os confrontos entre a juventude e a corte.

Em dado momento, por exemplo, aristocratas se apoiam em lanças compridas e sobem nos ombros uns dos outros. A precisão dos movimentos, a rigidez das armas e a altura que alcançam transmitem o poder que a aristocracia almeja.

Mais tarde, porém, uma cama elástica em forma de cruz situa uma batalha de cambalhotas, em que revoltosos superam tiranos e traduzem a energia pulsante das ruas. A partir daí, a trama intercala lutas coletivas e duelos com representantes de cada exército.

Entre os mais famosos estão os que reúnem duas cantoras, diferenciadas por roupas brancas e pretas. O canto conjunto atravessa as brigas e sugere um possível equilíbrio. No papel da segunda, mulher resiliente que representa o povo, Cássia Raquel defende a atmosfera lúdica como estratégia para encantar crianças.

“Em tempos de inteligência artificial, nada substitui os suspiros e os sustos que surgem diante desses feitos inimagináveis. A relação com as artes é uma herança que os pais deixam para os seus filhos.”

A cantora carioca compara os esforços físicos exigidos aos do atletismo e põe a brasilidade entre os aspectos que a diferenciam das atrizes de outras temporadas.

O espetáculo de que participa, inclusive, marca vinte anos desde a primeira vez que o circo veio ao Brasil. A estreia por aqui aconteceu com “Saltimbanco“, que explora as complexidades urbanas, e “Alegría – Um Novo Dia” é hoje a nona atração em solo nacional.

Seja pelo entusiasmo da plateia, seja pela perseverança dos profissionais brasileiros, Raquel diz que a companhia tem visto o país com cada vez mais seriedade. Essa mistura de nações e expressões artísticas, explicam ela e Andreuccetti, recupera o circo enquanto espaço popular e democrático.

“É um espaço aberto a qualquer corpo, cultura e identidade. Quando comecei no teatro musical, em 2010, 90% das notícias falavam de minha negritude. Dava para contar no dedo pessoas como eu”, adiciona a artista.

“Hoje, na era das informações, as pessoas veem que esse espaço é para todos. O brilho no olhar das meninas que se identificam comigo é diferente de tudo que já vi.”

noticia por : UOL

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