Embora todas as Copas vencidas pelo Brasil tenham terminado com imagens semelhantes, que mostram o capitão erguendo a taça, cada uma foi recebida de forma diferente pela torcida. Nenhuma das jornadas foi exatamente tranquila.
A galeria de conquistas mostrou times muito modificados durante o torneio, um futebol que encantou o mundo, outro futebol considerado “feio”, e alguns dos maiores craques brasileiros em episódios pessoais de consagração e redenção.
Se hoje a seleção campeã de 1958 é celebrada como uma das maiores reuniões de talento da história, os primeiros dias na Suécia indicavam um destino mais sombrio.
A escalação dos dois primeiros jogos não levou a campo os dois dos três maiores responsáveis pelo título que viria: Pelé e Garrincha. Além disso, o centroavante Vavá, vital na campanha, não atuou na estreia.
Aos 17 anos, Pelé pedia passagem para o time titular, mas nunca a seleção havia escalado alguém tão jovem.
Depois do empate sem gols diante dos ingleses na segunda rodada, o que tornou obrigatória a vitória contra a União Soviética no jogo seguinte, os brasileiros passaram quatro dias junto aos rádios, acompanhando a polêmica sobre a necessidade de mudanças.
Nos quatro jogos seguintes, Vavá e Pelé fizeram 11 dos 13 gols marcados pelo Brasil, garantindo o título de uma equipe que nunca havia treinado junta.
Quatro anos depois, no Chile, ganhar o bicampeonato era uma perspectiva concreta, com Pelé e Garrincha exaltados em todo o mundo.
Então veio o segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, e Pelé se machucou, abandonando a Copa. Com dez em campo, já que na época o futebol ainda não tinha a regra de substituição, a seleção segurou um empate sem gols.
Para o resto da Copa, a opção foi escalar Amarildo, que tinha como credencial jogar ao lado de Garrincha no ataque do Botafogo. Ele se saiu bem, marcando os dois gols da vitória seguinte, contra a Espanha.
Mas a Copa de 1962 acabou sendo a consagração de Garrincha. Ele jogou uma barbaridade na ausência de Pelé. Essa façanha é comparada à atuação de Maradona no México, em 1986, no bicampeonato da Argentina, nas chamadas “Copas vencidas por um homem só”.
Veio então 1970 e o time considerado o melhor de todos os tempos. Mesmo assim, levantou dúvidas antes do torneio. O Brasil tinha cinco jogadores excepcionais que atuavam de forma parecida em seus clubes: Pelé (Santos), Tostão (Cruzeiro), Jairzinho (Botafogo), Rivelino (Corinthians) e Gérson (São Paulo). A questão era achar uma maneira de encaixar jogadores que ocupavam o mesmo espaço no campo.
Para piorar, o Brasil enfrentaria no segundo jogo a Inglaterra, favorita ao bi depois de levar a taça em 1966. Mas o Brasil ganhou de 1 a 0 e inflamou a torcida. O time venceu todas as partidas, e o quinteto de craques fechou a campanha com um passeio nos 4 a 1 contra a Itália na final. Bom futebol e campanhas ufanistas do regime militar marcaram o auge do futebol brasileiro.
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Depois de 24 anos sem chegar ao tetra, o Brasil ganhou em 1994 sob críticas por praticar um futebol “feio”. O time dirigido por Carlos Alberto Parreira valorizava a posse de bola, mas sem atacar de forma intensa. O treinador foi atacado ao declarar que “o gol é um detalhe no futebol”.
A vocação defensiva de seu time teve como símbolo a troca de Raí, que começou a Copa como um terceiro atacante, por Mazinho, volante que se juntou a Dunga e Mauro Silva num meio-campo exageradamente cauteloso.
Para coroar esse estigma de futebol defensivo, a final contra a Itália terminou sem gols, com o título conquistado nos pênaltis.
No quinto título, em 2002, Luiz Felipe Scolari enfrentou pressão popular pela convocação de Romário, que não foi chamado. Felipão apostou em Ronaldo Nazário, que tinha seu futebol questionado após duas cirurgias no mesmo joelho.
Ronaldo foi o artilheiro da Copa, com oito gols. O time, com Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, foi aclamado por proporcionar o retorno de um futebol bonito e ofensivo.
Em 2026, as circunstâncias permitem pensar em repetições dessas diferentes visões do Brasil campeão: com mudanças radicais no time e a volta de um futebol mais agressivo, ou a consagração de um grande jogador, ou a redenção de um ídolo.
Resta saber se Vini Jr. pode ser um Garrincha ou Neymar consegue reagir como Ronaldo.
O BRASIL NAS CINCO COPAS QUE CONQUISTOU
1958 – SUÉCIA
Brasil 3 x 0 Áustria
Brasil 0 x 0 Inglaterra
Brasil 2 x 0 URSS
Brasil 1 x 0 País de Gales
Brasil 5 x 2 França
Brasil 5 x 2 Suécia
Jogos: 6
Vitórias: 5
Empate: 1
Gols a favor: 16
Gols contra: 4
Artilheiros
Pelé, 6 gols
Vavá, 5 gols
Mazzola, 2 gols
Didi, Nilton Santos e Zagallo, 1 gol
1962 – CHILE
Brasil 2 x 0 México
Brasil 0 x 0 Tchecoslováquia
Brasil 2 x 1 Espanha
Brasil 3 x 1 Inglaterra
Brasil 4 x 2 Chile
Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia
Jogos: 6
Vitórias: 5
Empate: 1
Gols a favor: 14
Gols contra: 5
Artilheiros
Garrincha e Vavá, 4 gols
Amarildo, 3 gols
Pelé, Zagallo e Zito, 1 gol
Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Brasil 3 x 2 Romênia
Brasil 4 x 2 Peru
Brasil 3 x 1 Uruguai
Brasil 4 x 1 Itália
Jogos: 6
Vitórias: 6
Gols a favor: 19
Gols contra: 7
Artilheiros:
Jairzinho, 7 gols
Pelé, 4 gols
Rivelino, 3 gols
Tostão, 2 gols
Clodoaldo, Carlos Alberto Torres e Gérson, 1 gol
1994 – ESTADOS UNIDOS
Brasil 2 x 0 Rússia
Brasil 3 x 0 Camarões
Brasil 1 x 1 Suécia
Brasil 1 x 0 EUA
Brasil 3 x 2 Holanda
Brasil 1 x 0 Suécia
Brasil 0 x 0 Itália (3 x 2 nos pênaltis)
Jogos: 7
Vitórias: 5
Empates: 2
Gols a favor: 11
Gols contra: 3
Artilheiros:
Romário, 5 gols
Bebeto, 3 gols
Branco, Márcio Santos e Raí, 1 gol
2002 – COREIA DO SUL E JAPÃO
Brasil 2 x 1 Turquia
Brasil 4 x 0 China
Brasil 5 x 2 Costa Rica
Brasil 2 x 0 Bé lgica
Brasil 2 x 1 Inglaterra
Brasil 1 x 0 Turquia
Brasil 2 x 0 Alemanha
Jogos: 7
Vitórias: 7
Gols a favor: 18
Gols contra: 4
Artilheiros:
Ronaldo, 8 gols
Rivaldo, 5 gols
Ronaldinho Gaúcho, 2 gols
Edmílson, Júnior e Roberto Carlos, 1 gol
noticia por : UOL
