A Justiça Militar de São Paulo decretou a prisão preventiva (sem prazo) do tenente-coronel José Henrique Martins Flores, acusado pelo Ministério Público de fornecer a estrutura empresarial a policiais militares que faziam a segurança privada de dirigentes da empresa de ônibus Transwolff, de seus familiares e das garagens da viação.
A reportagem tenta contato com a defesa de Flores desde a semana passada, por email e telefone, mas não obteve resposta.
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, a ordem foi cumprida neste sábado (29), um dia após o juiz Marcos Fernando Theodoro Pinheiro, da 3ª Auditoria Militar, receber a denúncia contra Flores e outros três policiais já presos, e atender ao pedido da Promotoria de prender Flores. Na denúncia, a Promotoria afirma que o oficial estava lotado no CPA/M7, em Guarulhos.
“O tenente-coronel mencionado está detido no Presídio Militar Romão Gomes, na capital, desde o último sábado (29), em cumprimento a mandado de prisão. O oficial foi conduzido por equipe da Corregedoria da PM. Ele é investigado por suspeita de envolvimento com uma organização criminosa. O caso é acompanhado pelos órgãos competentes”, diz nota do governo paulista.
A prisão pode ser revogada caso deixem de existir os fundamentos que justificaram sua decretação.
Ao determinar a prisão do tenente-coronel, o magistrado afirmou haver “provas robustas” para corroborar a narrativa da acusação e disse que a segregação do oficial seria necessária “com mais razão ainda” devido, entre outros fatores, ao alto posto ocupado por ele na Polícia Militar.
Flores era o único dos quatro policiais denunciados que permanecia em liberdade. O capitão Alexandre Paulino Vieira, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário e o sargento reformado Nereu Aparecido Alves estão presos preventivamente desde fevereiro, quando a Corregedoria da PM deflagrou a Operação Kratos. O juiz decidiu manter as prisões dos três.
Na denúncia apresentada na quarta-feira (26), como revelou a Folha, a Promotoria afirmou que os quatro policiais integraram uma organização criminosa responsável pela proteção de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, Cícero de Oliveira, o Té, outros dirigentes da Transwolff e seus familiares.
A acusação sustenta que a estrutura estava conectada ao grupo econômico investigado por suposta lavagem de recursos do PCC.
As defesas do capitão Alexandre Vieira e do sargento Nereu Alves negam ligação dos policiais com o crime organizado e apontam para prisões desnecessárias. A Folha não conseguiu contato com representantes de Romano.
Flores, segundo o Ministério Público, não atuava diretamente nas escalas de segurança. A função atribuída a ele era fornecer a retaguarda empresarial, administrativa e fiscal necessária para que os serviços fossem formalizados e os pagamentos circulassem por empresas aparentemente regulares.
O juiz acolheu essa descrição ao receber a denúncia. Na decisão, afirmou que, a partir de 2020, teria se formado um núcleo de segurança composto por policiais militares, vários deles integrantes da Rota, destinado à proteção dos dirigentes da Transwolff, de familiares e das garagens da companhia.
Segundo o magistrado, o capitão coordenava o núcleo, enquanto cabia a Flores a “retaguarda empresarial”. Romano e Nereu, de acordo com a acusação, atuavam na execução material da proteção, com escoltas e outros serviços de segurança.
Outro elemento destacado pelo magistrado é a relação comercial entre a empresa ligada a Flores e a Transwolff depois da Operação Fim da Linha, deflagrada em 9 de abril de 2024 pelo Ministério Público, Polícia Militar, Cade e Receita Federal.
Entenda a investigação
A operação investigou suspeitas de que empresas de transporte, entre elas a Transwolff, fossem utilizadas para lavar dinheiro de origem criminosa atribuído ao PCC. Os dirigentes da empresa também negam ligação com a facção. O processo contra eles ainda está em curso.
Segundo o juiz, o contrato mantido com a Transwolff teria sido majorado no dia seguinte à Operação Fim da Linha e permanecido em vigor até janeiro deste ano.
Para o magistrado, a estrutura empresarial teria dado “perenidade e aparência lícita” ao esquema e continuou funcionando mesmo depois de Flores ter conhecimento, por meio da imprensa, das suspeitas de vínculos entre a Transwolff e o PCC.
Ao pedir a prisão de Flores, a Promotoria havia argumentado que a permanência dele em liberdade poderia interferir na produção das provas, devido à influência exercida sobre funcionários, familiares e policiais de patentes inferiores.
Na decisão, porém, o juiz deu peso especial a outro aspecto: a posição de Flores na hierarquia da PM. Segundo o magistrado, um oficial ocupante de função de comando tem a missão institucional de zelar pela disciplina, probidade, eficiência e legalidade dos atos praticados por subordinados, além de proteger a corporação contra desvios de conduta.
O juiz também levou em consideração que os outros três policiais denunciados, todos de patente inferior à de Flores, já se encontravam presos preventivamente.
Antes responsável pela operação de 133 linhas e 1.100 ônibus da cidade de São Paulo, a Transwolff sofreu uma intervenção municipal em abril de 2024. Em dezembro de 2025, a prefeitura decretou a caducidade dos contratos.
Em sua defesa na Justiça, a Transwolff afirmou que foi criada uma narrativa criminal para substituição da concessionária e que, após seis meses de uma auditoria contratada pela própria gestão Ricardo Nunes (MDB), “nenhum indício de prática delitiva ou associação criminosa foi identificado, mas, ao contrário, os relatórios técnicos apontaram apenas questões de natureza operacional e financeira, todas passíveis de saneamento”.
noticia por : UOL