O que não diz a ciência sobre mulheres trans no esporte

O COI (Comitê Olímpico Internacional) proibiu a participação de mulheres trans na categoria feminina a partir dos Jogos de 2028, e a Suprema Corte dos EUA autorizou os estados a fazerem o mesmo no esporte escolar e universitário. Ante os ventos políticos de estibordo, são decisões esperadas. A inadequação consiste em envernizá-las com ciência.

Quem defende o banimento de mulheres trans costuma evocar a ciência do esporte. De fato, atletas do sexo feminino apresentam, em média, desempenho 10% a 65% inferior ao masculino, conforme as demandas fisiológicas da modalidade. Esse achado reflete o dimorfismo sexual —diferenças biológicas entre os sexos, acentuadas pela exposição a níveis mais elevados de testosterona na puberdade masculina, com efeitos sobre a composição corporal, a função muscular e a capacidade cardiorrespiratória.

Mas o dimorfismo sexual não basta para inferir uma vantagem competitiva de mulheres trans. As terapias hormonais de afirmação de gênero utilizam estrógenos e bloqueadores androgênicos para promover a feminização. Seus efeitos incluem redução substancial da força, da massa muscular e da capacidade aeróbia, além do aumento da gordura corporal. Nesse contexto, a pergunta norteadora não é se o sexo afeta a força ou a velocidade, mas se há boas evidências de que mulheres trans, após terapia hormonal, mantêm desempenho superior ao de seus pares cis.

Muitos tomam a resposta como óbvia, aferrando-se ao dimorfismo sexual —que, como vimos, não resolve a questão— ou a casos excepcionais. Em sua coluna Devolvam as medalhas para mulheres biológicas (sic), Alexandre Borges (UOL) cita Payton McNabb, que “levou uma bolada de saque na cara desferida por um homem biológico (sic) que competia no time feminino adversário (…) Até hoje convive com visão prejudicada, paralisia parcial no lado direito, dores de cabeça constantes, ansiedade e depressão”.

Para sustentar a equiparação da transgeneridade à trapaça do doping e defender o banimento da atleta trans como um “processo de cura” do mundo, Borges recorre ao exemplar saliente: toma um caso emocionalmente avassalador como representativo do todo. Omite que McNabb, hoje porta-voz remunerada de uma organização de lobby antitrans, é uma face entre as mais de 214 mil atletas que sofreram lesões no vôlei escolar e universitário desde 2012.

Como observou o estatístico John Tukey, casos anedóticos podem impressionar, mas não constituem evidência. Neste ano, publicamos uma ampla revisão sistemática com meta-análise sobre estudos que compararam mulheres trans e cis. Concluímos que a evidência disponível, de baixa certeza e sem incluir atletas de elite, não aponta uma vantagem atlética intrínseca, persistente e universal das mulheres trans após terapia hormonal.

Importa esclarecer que o estudo não demonstra a equivalência competitiva incondicional entre mulheres trans e cis. Revela, isto sim, que o pressuposto científico das políticas de banimento —a existência de uma vantagem competitiva generalizada após a transição de gênero— permanece sem comprovação. Medidas regulatórias extremas, como a exclusão categórica de um grupo social inteiro, das escolas ao olimpismo, do boxe ao xadrez, deveriam exigir evidências robustas. Na ausência delas, transfere-se aos excluídos a tarefa de demonstrar que não possuem a vantagem que se presume existir. Essa inversão do ônus da prova, curiosamente, foi por muito tempo rejeitada pelo COI, até sua recente e radical mudança de posicionamento.

Partidários do banimento de mulheres trans podem ainda encontrar guarida, mais ou menos legítima, na ética esportiva, na religião, no feminismo ou no oportunismo político. Dos que se arvoram na ciência, contudo, espera-se que respeitem seus critérios, a começar pela distinção entre hipótese (o que poderia ser) e empiria (o que a investigação revela). “O que eu quero que seja”, por seu turno, não tem lugar no método científico.


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noticia por : UOL

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