Depois da malfadada concessão do Anhangabaú, a praça Roosevelt é a bola da vez. Na semana passada, a Prefeitura de São Paulo lançou um edital para a concessão da praça à iniciativa privada. O consórcio escolhido pagará uma outorga e ganhará o direito de exploração comercial; em troca, fará a manutenção e os investimentos na praça e na rua Gravataí, aquela ruazinha entre a Roosevelt e o parque Augusta.
Não se trata de uma praça qualquer.
A Roosevelt conta parte da história de São Paulo. Já foi mato, já foi chácara da família Prado, hospedou velódromo, foi transferida para o município, ganhou o nome de praça Consolação e, em 1950, o do ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt. Asfaltada, tornou-se um estacionamento nos dias de semana; aos sábados, abrigava uma feira e, aos domingos, a missa. À noite, recebia os frequentadores do Baíuca, da doceria Vendôme, Sujinho, Cine Bijou e Teatro Cultura Artística.
A ligação leste-oeste, na década de 1970, mudou tudo. As obras viárias rasgariam a praça e um novo projeto modernista, com cinco andares abrigando estacionamento, centro esportivo e educacional, polícia e supermercado foi concebido para funcionar como uma “tampa” sobre os veículos.
O monstro de concreto não deu certo. A degradação física, violência e sujeira se acentuaram nas décadas de 1980 e 90, coincidindo com o fechamento de lojas, bares e restaurantes no entorno.
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No ano 2000, o grupo de teatro Os Satyros se instalou num desses espaços vazios. Sua chegada é emblemática por trazer novos usos, novos públicos e, principalmente, por ser um porta-voz da convivência entre grupos diferentes no mesmo espaço.
A praça foi reformada em 2012. A reforma não foi brilhante, mas teve o mérito de trazer de volta a estrutura aberta, conectando a Augusta e a Consolação ao entorno, o suficiente para atrair multidões e se tornar, de novo, um ponto de referência.
De lá para cá, a prefeitura não conseguiu ou não quis fazer a manutenção básica: o bonito pergolado está carcomido, bancos quebraram, árvores feneceram, o café foi desativado, o piso está mal cuidado e o estacionamento continuou fechado à população.
É possível que um ente privado consiga cuidar melhor da manutenção básica da praça? Talvez, mas mesmo nessa opção, poderiam ser feitos contratos específicos para o estacionamento, os quiosques e a zeladoria. Ao amarrar tudo num contrato só, a prefeitura transfere a gestão da praça inteira para uma empresa, que vai ter 20 anos de exploração comercial —além dos quiosques e estacionamento, ganhará com eventos, publicidade e até a venda dos “naming rights”. Ou seja, numa ironia perversa, a concessão pode até alterar o nome do lugar que se está buscando preservar.
Concessões poderiam, em teoria, até ser meios para garantir a integridade de espaços públicos. Da maneira como estão sendo concebidas, porém, sem amarras contratuais e sem conselhos participantes, são fins em si, que arriscam a essência do próprio espaço. No caso da Roosevelt, temos uma praça com pessoas, bares, teatros, escolas no entorno, gente passando de dia e de noite.
Em vez de se perguntar como se livrar de um problema, a prefeitura deveria estar perguntando como potencializar essa vitalidade, a característica mais importante de um bom espaço público, sem descaracterizá-lo.
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noticia por : UOL
