Eurípides Ferreira atuou como médico por mais de 50 anos. A medicina era um caminho que desejava seguir desde a infância, e foi em Curitiba, para onde se mudou de Colina (SP) com a família aos 11 anos, que ele construiu grande parte de sua trajetória nas áreas da hematologia e oncologia.
Em 1979, foi um dos responsáveis por conduzir o primeiro transplante de medula óssea da América Latina no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná.
Anos mais tarde, em 1997, também participou do primeiro autotransplante de medula óssea do mundo, segundo o Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, um dos principais complexos pediátricos do país. Gabriela Verillo de Medeiros, 30, na época com dois anos, recebeu as próprias células que haviam sido inicialmente preservadas para ajudar no tratamento do irmão.
“Muitas das memórias que tenho com ele são dos momentos posteriores à quimioterapia, durante o acompanhamento. Todas as vezes em que fui encontrá-lo, ele estava de braços abertos para mim e para a minha família, me acolhendo e explicando, com muita paciência, tudo o que o meu corpo poderia passar e como o tratamento daria certo”, conta Gabriela.
Eurípides ajudou a estruturar as áreas de oncologia, hematologia e de transplante de medula óssea do Pequeno Príncipe. Flora Mitie Watanabe, 75, oncologista pediátrica do hospital que trabalhou ao lado dele nessas quase cinco décadas, conta que ele era atencioso e tinha o dom de acalmar as pessoas.
“Ele era uma pessoa muito brincalhona com os colegas e pacientes. Não perdia o bom humor mesmo diante de toda a correria do hospital”, diz Flora.
A colega e amiga também destaca a força de Eurípides em continuar exercendo a profissão mesmo nos momentos mais difíceis. “Quando perdíamos um paciente e ficávamos arrasados e tristes, ele dizia ‘não morra junto, há outros pacientes que precisam de você’.”
Gabriella conta que o médico foi responsável por trazer esperança para ela e sua família. “Tenho certeza de que existem muitas pessoas como eu, hoje saudáveis e felizes, vivendo suas vidas e sendo gratas pela existência desse ser humano incrível. Seu legado vai continuar por muitos anos. Nunca deixaremos que a luz de esperança que ele sempre fez questão de acender se apague”.
Eurípides também atuou no Hospital Nossa Senhora das Graças em Curitiba, referência no país em transplantes de medula óssea. Em comunicado, a unidade destacou que ele exerceu sua carreira com “profundo conhecimento, zelo, humanidade e carinho no cuidado com cada paciente”.
O oncologista ainda foi um dos responsáveis pela criação, em 1996, da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO), voltada a profissionais da saúde interessados em transplante de medula óssea e terapia celular.
Morreu em 3 de abril, aos 86 anos, por complicações de saúde em decorrência da idade. Deixa três filhos, seis netos e milhares de pacientes que o consideravam parte da família.
noticia por : UOL
