Inflação da energia dispara e encarece de pãozinho a grandes obras de infraestrutura

O preço do pãozinho não é apenas a soma do custo com farinha de trigo, água, fermento, sal e lucro da padaria. Quase 30% é energia —18,7% em eletricidade e gás dos fornos para assar a massa, outros 11% em combustível para transportar os insumos em vans, caminhões e até navios.

Essa despesa invisível com energia está em todos os produtos e serviços no mundo inteiro. O problema é que disparou no Brasil, tornando-se um importante elemento para elevar o preço de bens e serviços, pressionar a inflação e reduzir a competitividade da economia.

Em 2000, por exemplo, um pãozinho custava cerca de R$ 0,15. Hoje, está perto de R$ 1. Dos R$ 0,85 de aumento, cerca de R$ 0,73 —ou 86%— são atribuídos ao encarecimento das diferentes fontes de energia ao longo da cadeia de produção.

Detalhes como esses estão no estudo “O Impacto da Evolução do Custo da Energia no Preço das Mercadorias e na Inflação Brasileiras de 2000 a 2026”. O trabalho foi realizado pela Ex Ante Consultoria Econômica a pedido da Abrace, entidade que representa grandes empresas consumidoras de energia.

Segundo Fernando Garcia, coordenador do estudo e sócio-diretor da Ex Ante, o objetivo é mostrar para as famílias brasileiras o custo energético escondido nos produtos e serviços —que é a maior parte.

Dos 100% do consumo dos brasileiros com energia elétrica, 35% é conta de luz. Do total com gás, 14% é gasto na cozinha ou no chuveiro —todo o resto vem embutido em produtos e serviços.

“As pessoas enxergam quanto gastam com tarifa de energia, para comprar um botijão ou abastecer o carro no posto, mas não veem a conta invisível que está embutida na produção”, afirma Garcia.

“E tem custo de energia escondido em tudo: alimentos, material escolar, remédios, produtos para construção, vestuário, veículos, no copinho de plástico e nas máquinas que produziram tudo isso —e quando esse gasto com energia aumenta, se espalha pela economia. É o que está acontecendo.”

Em um simples caderno escolar, a energia equivale a 34% do preço final, no cimento, a 32%, no vidro, a 30%, na carne do bifinho, a 27%, no café moído, a 19%, e no automóvel, a 12%.

O estudo também acompanhou a evolução dos preços de 2000 a junho de 2026 de 48 bens e serviços —32,6% da cesta que compõe o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), tomando como referência o peso médio de cada item ao longo deste ano.

Na lista estão alimentos do dia a dia, incluindo até ovo, vestuário básico como camiseta, transporte público, mas também passagem aérea, planos de saúde, mensalidades escolares, para ficar em alguns exemplos. É possível ver que a energia se tornou uma espécie de vilão da carestia —no conjunto, 68% do aumento desses 48 itens foi puxado por despesas com eletricidade, gás e combustíveis.

Nos 26 anos analisados, energia respondeu por 79% da alta do leite longa vida, 71% do aumento no preço de um tênis, 61% da alta da cerveja e 53% da do desodorante.

O custo está misturado à prestação de inúmeros serviços. Cerca de 23% do aumento daquele prato feito fora de casa foi energia, porque além do custo do preparo o bar e o restaurante gastam muito com refrigeração e ar-condicionado.

A água da torneira tem custo alto com energia. O saneamento básico depende de máquinas para captar, tratar, bombear e distribuir água e para coletar e tratar esgoto. As despesas com eletricidade no saneamento passaram de R$ 2,9 bilhões em 2010 para R$ 9,1 bilhões em 2024, alta de 213%.

A despesa que mais subiu, porém, foi com produtos químicos intensivos em energia —avanço de 369%—, puxada sobretudo pelo cloro usado no tratamento. A eletricidade responde por até 70% do custo do cloro a depender do tipo de produção.

O levantamento também mediu o impacto sobre bens de capital e setores ligados aos investimentos, tomando como base 2021, último ano com dados detalhados das Contas Nacionais do IBGE.

Na cadeia da construção civil, a energia equivalia a 14% do custo. Na produção de máquinas e equipamentos, ficava em 13%, chegando a 21,6% no caso de máquinas e equipamentos elétricos. Tomando essa participação como premissa, o estudo identificou que 72% do aumento de preço na construção civil nas duas últimas décadas veio da energia. No caso da produção de máquinas em geral, ficou em 28%.

BRASIL EM DESVANTAGEM

Garcia explica que essa espécie de “inflação energética” é um fenômeno local, porque o custo da energia para a produção brasileira é muito maior do que em outros mercados.

Entre 2000 e 2026, o preço da eletricidade paga pelos setores produtivos brasileiros, em dólares, subiu 327,7% —182,4 pontos percentuais acima dos Estados Unidos e 218,1 pontos acima da União Europeia.

No gás natural, o preço da molécula aumentou 154,5% no Brasil, enquanto caiu 64% nos Estados Unidos. Na comparação com a União Europeia, a alta brasileira foi 48,1 pontos percentuais maior.

“Quando a energia fica mais cara, a indústria perde competitividade, produz menos e esse custo acaba chegando ao bolso dos brasileiros na forma de produtos e serviços mais caros”, afirma Daniela Coutinho, vice-presidente da Abrace Energia.

“Persistir nessa política anti-industrial de energia significa comprometer a produção, o emprego e o desenvolvimento do país.”

Para Garcia, o encarecimento resulta da falta de uma estratégia de longo prazo para o setor de energia. Faz mais de 20 anos que os governos optaram por resolver problemas pontuais com decisões desconexas, recorrendo especialmente à criação de benefícios e subsídios, que não vão para o Orçamento e são distribuídos na tarifa de energia.

Tem de tudo. Redução na conta de luz para a baixa renda, incentivo a novas fontes (que nem precisam mais de apoio, segundo especialistas), financiamento a térmicas para dar segurança ao sistema e afago a uns setores em detrimento de outros. A bola de neve cresceu e criou um paradoxo: o Brasil produz em abundância energia barata e limpa, mas cobra as tarifas mais caras do mundo.

“Não adianta dar com uma mão e tirar com a outra, porque é isso que os governos têm feito: conta de luz barata para uns, pão mais caro para todo mundo.”

PERDA DE COMPETITIVIDADE

Um dos diferenciais do levantamento é apresentar o custo unitário com energia —a despesa com energia por unidade de mercadoria produzida. Em termos simples, quanto se gasta com diferentes fontes para produzir um biscoito, um trator, um garfo ou uma máquina de fabricar papel.

O cálculo acompanha a evolução de 2000 a junho de 2026 em base 100: ou seja, atribui ao ano inicial o valor 100 e mede a variação a partir daí. Esse tipo de indicador permite comparar o impacto de diferentes fontes de energia sobre o custo da produção nacional.

Nesse período, o custo unitário da energia elétrica para a indústria brasileira aumentou 1.593% em reais —mais de quatro vezes a inflação. Em dólares, a alta foi de 523,8%. No gás natural, a escalada foi maior: o custo por unidade produzida aumentou 2.604% em reais, cerca de sete vezes a inflação. Em dólares, avançou 896%.

No mesmo período, os preços industriais subiram 613% no Brasil, ante 102% nos Estados Unidos e 45% na União Europeia.

Para Garcia, a energia cara virou um entrave para a economia brasileira, junto com outros problemas, como carga tributária elevada, falta de infraestrutura, burocracia e educação deficiente. “Energia se tornou um dos fatores mais importantes para a desindustrialização do país, especialmente dos setores eletrointensivos.”

noticia por : UOL

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