Chefe da Stock Car, pai de Bortoleto quer transformar corridas em plataforma de negócios


São Paulo


Dono da Stock Car e maior conglomerado de automobilismo da América do Sul, o Grupo Veloci projeta triplicar seu faturamento até 2030 apostando em combinações clássicas, como a compra de categorias concorrentes, e em outras pouco convencionais para o setor esportivo, como a internalização de serviços antes terceirizados.

Nos fins de semana de corrida, a proposta de Lincoln Oliveira, CEO do grupo, é estabelecer uma plataforma de geração de negócios entre patrocinadores e empresas parceiras. Se para o fã de automobilismo a corrida é o centro da operação, para Oliveira ela é um meio, não o fim.



Lincoln Oliveira e o filho, Gabriel Bortoleto, piloto brasileiro da Fórmula 1


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James Gasperotti/KTF Sports

“A paixão coloca o carro na pista, mas são os negócios que mantêm ele na pista. Você não tem como criar um evento grandioso, um evento que seja cada vez maior, que as pessoas consigam se tornar mais profissionais, seja mecânicos, equipes, se você não tiver negócios envolvidos”, afirma Oliveira, que é pai do piloto Gabriel Bortoleto, único brasileiro na Fórmula 1 atualmente.

Essa visão do automobilismo por dentro sintetiza a lógica que ele descreve para justificar decisões que vão da compra de um campeonato à separação, dentro da própria empresa, entre quem cuida do produto esportivo e quem cuida do produto comercial.

O grupo pretende anunciar ainda neste mês a compra do campeonato Ultimate Drift, idealizado pelo piloto João Barion. Oliveira não revela valores, mas avalia que, se toda a fase de diligência for concluída favoravelmente, em breve o campeonato será da Veloci —que hoje controla, além da Stock Car Pro e Light, a Fórmula 4 Brasil, Turismo Nacional, TCR Brasil e TCR South America.

O público que a modalidade atraiu nos últimos anos justifica a aposta no drift. Em agosto, durante a etapa de Ribeirão Preto (SP), mais de 20 mil pessoas acompanharam as corridas do fim de semana e, segundo o CEO da Veloci, torceram como se estivessem em um jogo de futebol.

Hoje, as seis categorias controladas pelo grupo devem encerrar o ano com um faturamento de R$ 230 milhões, valor quase 30% maior do que o registrado em 2025.

Para sustentar esse crescimento, o grupo tem internalizado serviços que antes eram contratados de terceiros a cada etapa, como geradores, estrutura metálica e serviços de telecomunicação.

Segundo Oliveira, como todo o material é usado ao longo da temporada e por vários anos, comprar em vez de alugar melhora o lucro operacional.

Entre os investimentos citados estão um painel de LED de 120 metros no pódio, a montagem do chamado “cooldown room”, que é uma sala reservada aos pilotos imediatamente após o fim da corrida, e uma carreta de 23 metros que funciona como centro de controle de prova e que comanda mais de 180 câmeras utilizadas pela CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) para fiscalização em tempo real.

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À estratégia de verticalização, soma-se ainda a criação de novas fontes de receita dentro do próprio evento, como lojas de souvenir e experiências pagas como as chamadas “voltas rápidas” ao lado de pilotos profissionais oferecidas a convidados de patrocinadores. Para o ano que vem, a novidade será a organização de corridas de rua matinais utilizando o autódromo como um ativo ocioso fora do horário de competição.

“A gente vai fazer isso em todas as categorias para atrair ainda mais os patrocinadores, criar espaços novos como lounges VIP para poder fazer geração de negócio B2B e B2C [entre empresas e consumidores], organizar exposição para os nossos patrocinadores, para as montadoras levarem os carros, fazer feirão dentro do evento, e até corrida de rua”, explica Oliveira.

Em 2025, o grupo registrou retorno publicitário de R$ 2 bilhões, e a previsão é de que esse indicador cresça 19% em 2026. A métrica mede o valor equivalente em mídia gerado pela exposição de marcas de patrocinadores.

Parte da estratégia envolve a reorganização física da publicidade dentro do autódromo. Em vez de dividir cada trecho da pista entre múltiplos anunciantes, o grupo passou a criar setores dedicados a uma única marca —como o S do Senna, considerado a área com o maior retorno de mídia no autódromo de Interlagos, que será reservado ao Bradesco, patrocinador master da Stock Car.

Esse modelo, afirma o executivo, segue uma referência adotada na Fórmula 1 e é desenvolvido em parceria técnica com o Ibope.

Eventos especiais no calendário também atuam como chamariz da categoria, como a Corrida do Milhão, a etapa da Stock Car Endurance, com duas horas de duração e troca de duplas em cada equipe ao longo da disputa, e a grande final no autódromo de Interlagos.

Para o próximo ano, a Stock terá uma série inspirada no modelo de “Drive to Survive”, programa exibido na Netflix que mostra os bastidores da Fórmula 1 e é apontado como um dos responsáveis pelo ressurgimento da categoria nos últimos anos.

A proposta da Veloci é documentar a trajetória de jovens pilotos em ascensão na Stock Light e na TCR, que serão formados na chamada Academia da Stock Car. As gravações já foram iniciadas e vão mostrar o desenvolvimento dos campeões das duas categorias na categoria principal, os bastidores das tomadas de decisão e a dinâmica com pilotos mais experientes.

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O objetivo com a academia é resolver dois problemas. O primeiro deles é garantir que os novatos subam de posição com uma vaga 100% paga e se preocupem somente em correr.

O segundo é o que garante a sobrevivência do esporte: formar mão de obra especializada, principalmente mecânicos, engenheiros e telemetristas —profissionais responsáveis por interpretar os dados captados pelos sensores dos carros ao longo da corrida.

“Como estamos profissionalizando todas as categorias do grupo, a gente quer, cada vez mais, que esses profissionais sejam formados internamente. Isso também ajuda a reduzir o custo de running, porque com a escassez, os valores aumentam muito”, explica Oliveira.

Para os próximos anos, a intenção é encontrar uma janela de oportunidades para um IPO (oferta pública inicial de ações) na bolsa. A meta é atingir R$ 500 milhões em receita e aguardar um cenário macroeconômico favorável.

“É lógico que quando o país não está bem economicamente, não tem janela. Veja o exato momento agora, um monte de empresa gostaria de fazer o IPO, mas não é o momento adequado. Então provavelmente, seja a partir do ano que vem, eu diria 2027, 2028, melhor ainda, serão os momentos adequados para isso.”

Tendo Gabriel Bortoleto como cartão de visitas, Oliveira também não descarta a expansão da holding brasileira para outros países da América do Sul e, potencialmente, para a Europa. Esse cenário, explica o executivo, passa pela abertura de capital.


RAIO-X | GRUPO VELOCI

Fundação: 2020

Empresas controladas: Vicar Promoções Desportivas (promotora de eventos) e Audace Tech (braço de tecnologia do grupo)

Categorias: Stock Pro Series (criada em 1979), Stock Light, Fórmula 4 Brasil, TCR Brasil, TCR South America e Turismo Nacional

Faturamento: R$ 180 milhões em 2025 e projeção de R$ 230 milhões em 2026

Concorrentes: Nascar Brasil, Porsche Cup Brasil, Copa Truck, Ultimate Drift (em processo de aquisição)

noticia por : UOL

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