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Carlos Aburad é médico patologista.
CARLOS ABURAD
Em um país onde o câncer de pele é o tipo de tumor mais frequente, a busca por tratamentos cada vez mais precisos torna-se tão importante quanto o diagnóstico precoce da doença. No mês conhecido como Junho Preto, dedicado à conscientização sobre o câncer de pele do tipo melanoma, um dos avanços que mais chama a atenção acontece dentro do próprio centro cirúrgico: a possibilidade de identificar, em tempo real, se o tumor foi completamente removido.
Na Cirurgia Micrográfica de Mohs, considerada a técnica mais precisa para os tipos mais comuns de câncer de pele, o microscópio entra em campo para permitir que decisões sejam tomadas enquanto o procedimento ainda está em andamento.
De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. Entre eles, os cânceres de pele não melanoma continuam liderando as estatísticas nacionais. Já o melanoma, embora menos frequente, permanece como o tipo mais agressivo da doença por conta da sua maior capacidade de disseminação para outros órgãos.
Em uma área da medicina onde tempo e precisão podem fazer toda a diferença, o diagnóstico anatomopatológico em tempo real vem mudando a forma como alguns tumores são tratados. Em vez de remover a lesão e aguardar dias pelo resultado definitivo do laboratório, é possível fazer o diagnóstico em tempo real e fornecer informações que orientam a cirurgia enquanto ela acontece.
Nesse contexto, a Cirurgia Micrográfica de Mohs tornou-se referência mundial para o tratamento dos tipos mais comuns de câncer de pele. Considerada atualmente a técnica mais precisa para esses tumores, ela alcança taxas de cura que podem chegar a 99% nos casos tratados pela primeira vez. O principal diferencial está na análise microscópica de praticamente 100% das margens cirúrgicas durante o próprio procedimento.
Na prática, o cirurgião remove o tumor em camadas muito finas. Cada fragmento é imediatamente processado, mapeado e examinado ao microscópio. Enquanto o paciente permanece no centro cirúrgico, é possível identificar exatamente onde ainda existem células tumorais. Se algum foco residual for encontrado, apenas aquela área específica é novamente removida. O processo se repete até que todas as margens estejam livres da doença. O que parece um detalhe técnico produz impactos significativos para o paciente.
Na cirurgia convencional, o tecido retirado é encaminhado ao laboratório e apenas amostras representativas das margens são analisadas. Já na técnica micrográfica, praticamente toda a periferia e a profundidade da peça cirúrgica são examinadas. Isso reduz de forma significativa a possibilidade de células tumorais passarem despercebidas e diminui a necessidade de novas intervenções futuras.
Outro benefício relevante é a preservação do tecido saudável. Em regiões delicadas da face, como nariz, pálpebras, lábios e orelhas, poucos milímetros podem representar grande diferença tanto do ponto de vista funcional quanto estético. Como a retirada adicional ocorre somente nos locais onde o microscópio identifica a presença de tumor, evita-se a remoção desnecessária de pele sadia.
Estudos internacionais demonstram que a Cirurgia Micrográfica de Mohs pode preservar entre 46% e 86% mais tecido saudável do que as margens convencionais utilizadas em determinados tumores faciais. Isso frequentemente resulta em reconstruções menores, cicatrizes mais discretas e melhores resultados funcionais e estéticos.
Mas talvez o aspecto mais relevante dessa conduta seja a mudança de paradigma que ela representa. Durante décadas, o diagnóstico e o tratamento foram etapas separadas. Primeiro vinha a cirurgia. Depois, o laboratório. Por fim, o resultado. Hoje, em procedimentos cada vez mais sofisticados, essas etapas já se fundem. O microscópio torna-se uma extensão do ato cirúrgico, permitindo decisões mais rápidas, precisas e seguras.
Essa integração entre cirurgiões e patologistas beneficia diretamente o paciente. Ao reduzir a chance de permanência de células tumorais, diminuir a necessidade de novas cirurgias e preservar o máximo possível de tecido saudável, o tratamento torna-se mais eficiente tanto do ponto de vista oncológico quanto funcional e estético.
Naturalmente, nenhum avanço tecnológico substitui os cuidados básicos. O uso diário de protetor solar, a proteção contra a radiação ultravioleta e a avaliação médica diante de manchas ou lesões suspeitas continuam sendo fundamentais. Alterações de tamanho, cor, formato ou bordas devem sempre ser investigadas.
Mas é importante que a população saiba que os avanços no combate ao câncer de pele não acontecem apenas na prevenção ou no diagnóstico precoce. Eles também estão na capacidade de tratar a doença com níveis cada vez maiores de precisão.
Se durante muito tempo a medicina precisou esperar dias para saber se um tumor havia sido totalmente removido, hoje o microscópio já consegue responder a essa pergunta enquanto a cirurgia ainda está acontecendo. E quando cada milímetro de pele preservada e cada célula tumoral eliminada fazem diferença, essa resposta imediata deixa de ser apenas um avanço tecnológico para se tornar um avanço humano.
Carlos Aburad é médico patologista.
FONTE : ReporterMT

