2/3 dos estudantes de medicina têm sintomas depressivos moderados ou graves, aponta estudo

Nas redes sociais, a estudante de medicina Natália Barros, 22, gosta de compartilhar a rotina acadêmica com os seguidores. As publicações mostram fotos de jaleco e bastidores da faculdade. O que não aparece nos posts é todo o impacto que o curso tem provocado em sua saúde mental.

Estudante do terceiro ano da Unifesp, Natália deixou João Pessoa (PB) para morar em São Paulo. Ela relata cansaço, dificuldade de concentração, alterações no sono e perda de apetite, sintomas depressivos que associa à falta de tempo imposta pela rotina da graduação.

As atividades físicas e os hobbies foram os primeiros itens a sair da agenda após entrar na graduação em medicina. Trocou a academia pela aula de balé por ser apenas uma vez na semana. “A última vez que eu senti que tinha tempo de sobra foi nas férias, quando não fiz nada. Só vivi minha vida alheia à faculdade“, diz.

Natália não é a única estudante da graduação no país a sofrer pela falta de tempo por conta da rotina. Um estudo publicado na Brazilian Journal of Psychiatry, intitulado “Ambiente de aprendizagem, fatores de estresse acadêmico e aspectos institucionais como determinantes dos desfechos de saúde mental na educação médica”, mostrou que 2 em cada 3 estudantes de medicina ouvidos (66%) apresentaram sintomas de depressão moderada a grave.

Conduzida por pesquisadores do CISM (Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental), a pesquisa ouviu 1.026 estudantes de 74 instituições públicas e privadas. Metade também apresentou sintomas de ansiedade (50,5%).

Os índices encontrados no Brasil estão acima das estimativas globais para estudantes de medicina. No mundo, 27,2% apresentam sintomas de depressão e 33,8%, de ansiedade durante a formação médica.

A falta de tempo foi o estressor mais citado, seguida por questões ligadas ao desempenho acadêmico, relacionamentos, preocupações com a saúde e dificuldades de aprendizagem.

Para o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do CISM e um dos responsáveis pelo estudo, o problema está na naturalização do sofrimento como parte da formação. “Infelizmente, isso faz parte do que a gente chama de currículo oculto, que é uma questão tacitamente passada de que sofrer faz parte, de que a falta de tempo faz parte. É passado de geração em geração.”

A coleta ocorreu entre setembro de 2023 e setembro de 2024 e incluiu voluntariamente estudantes de medicina com 18 anos ou mais, do primeiro ao sexto ano.

Para identificar sintomas depressivos, foi utilizado um questionário com nove itens, chamado PHQ-9, que avalia a ocorrência de sintomas nas duas semanas anteriores. A pontuação varia de 0 a 27 e classifica os sintomas como mínimos, leves, moderados, moderadamente graves ou graves.

A ansiedade foi avaliada pelo GAD-7, escala de sete perguntas que atribui pontuações de 0 a 21 e classifica os sintomas em níveis mínimo, leve, moderado ou grave.

Além disso, os pesquisadores também aplicaram o JHLES, instrumento que avalia a percepção dos alunos sobre o ambiente de aprendizagem. Por fim, a MSSF, escala desenvolvida e validada pelo grupo de pesquisadores brasileiros, foi utilizada para avaliar os fatores de estresse.

Os resultados mostram diferenças na percepção do ambiente acadêmico de acordo com o tipo de instituição. Alunos de universidades privadas avaliaram de forma mais positiva o ambiente de aprendizagem, principalmente as relações com professores e o clima acadêmico. Estudantes de universidades públicas apresentaram mais estresse relacionado a notas e avaliações.

A experiência relatada por Natália se aproxima desse resultado da pesquisa. Nos dois primeiros anos do curso, ela diz ter enfrentado dificuldades de comunicação com professores.

Ela também relata episódios de competição entre estudantes. Para ela, a pressão acadêmica pode fazer com que alguns alunos deixem de compartilhar materiais de estudo, como slides, com colegas.

Os 15 fatores associados mais importantes da análise de Depressão (PHQ-9)



















Variável Tipo
Falta de Tempo Fator de Risco
Preocupações de Saúde Fator de Risco
Relacionamentos Fator de Risco
Dificuldades de Aprendizagem Fator de Risco
Colaboração entre Pares Fator Protetor
Clima Acadêmico Fator Protetor
Desempenho Acadêmico/Aprendizagem Fator de Risco
Inclusão e Aceitação Fator Protetor
Relação com Docentes Fator Protetor
Engajamento Significativo Fator Protetor
Sexo (Masculino) Fator Protetor
Espaço Físico Fator Protetor
Idade (anos) Fator Protetor
Mentoria Fator Protetor
Tipo de Universidade (Pública) Fator de Risco

Os 15 fatores associados mais importantes da análise de Ansiedade (GAD-7)



















Variável Tipo
Falta de Tempo Fator de Risco
Preocupações de Saúde Fator de Risco
Relacionamentos Fator de Risco
Dificuldades de Aprendizagem Fator de Risco
Colaboração entre Pares Fator Protetor
Clima Acadêmico Fator Protetor
Desempenho Acadêmico/Aprendizagem Fator de Risco
Inclusão e Aceitação Fator Protetor
Relação com Docentes Fator Protetor
Engajamento Significativo Fator Protetor
Sexo (Masculino) Fator Protetor
Espaço Físico Fator Protetor
Mentoria Fator Protetor
Tipo de Universidade (Pública) Fator de Risco
Estudante Cotista Fator de Risco

A pesquisa identificou ainda características associadas à menor intensidade de sintomas de ansiedade e depressão, entre elas a colaboração entre colegas e o clima acadêmico.

Gabriel Gaspar, 23, estudante do segundo semestre de medicina na USP, afirma manter uma boa saúde mental apesar da rotina exaustiva. Ele atribui isso, em parte, à integração social proporcionada pelas atividades da atlética.

Também diz que os quatro anos de cursinho, no Anglo, o ajudaram a desenvolver uma espécie de “casca” para enfrentar as dificuldades. “A falta de tempo me afeta, mas me afeta pouco porque eu estou fazendo coisas hoje na faculdade que eu quis muito fazer”, afirma.

As diferenças aparecem também quando os pesquisadores analisam a forma de ingresso na universidade. Estudantes que entraram por cotas tiveram pontuações mais altas no PHQ-9 e níveis mais elevados de estresse acadêmico. Bolsistas apresentaram percepção menos positiva sobre a colaboração entre colegas e o engajamento nas aulas.

A estudante cotista e bolsista Anna Catarina diz ter encontrado, ao entrar na faculdade privada, uma divisão socioeconômica entre as turmas. Segundo ela, a primeira era formada majoritariamente por estudantes que pagavam a mensalidade integral, enquanto as seguintes, especialmente a D, reuniam principalmente beneficiários do Fies e do Prouni.

A experiência fez com que questionasse a própria capacidade e se de fato pertencia àquele espaço.

Hoje, Anna acorda às 4h para preparar as marmitas do dia e sai de casa às 6h para chegar à faculdade às 7h30. Antes de conseguir um carro, fazia o trajeto com dois ônibus e um metrô lotado.

Por causa da privação de sono, mantém um cobertor no armário da faculdade e diz que já dormiu sobre bancos nos corredores. “Se eu sair num final de semana, eu já me sinto preocupada, já me sinto com a sensação de que eu deveria estar estudando mais, não era para eu estar aqui”, afirma.

O estresse também aparece em sintomas físicos. Anna relata crises de dermatite, tremores no olho e uma crise de enxaqueca tão intensa que a faz vomitar repetidamente.

As diferenças entre cotistas e não cotistas deixam de aparecer quando os pesquisadores consideram fatores como ambiente de aprendizagem e estresse acadêmico. Segundo Damiano, isso indica que a associação inicialmente observada não pode ser atribuída à condição de ter ingressado por ação afirmativa.

“Não existe algo inerente a ser cotista que leve a uma pior saúde mental. O que acontece é que a percepção do ambiente de aprendizagem é pior, talvez porque seja mais estressante ou porque ele sofra mais discriminação. Quando controlamos [na pesquisa] esses fatores ambientais, o efeito de ‘ser cotista’ desaparece.”


Números da pesquisa

  • 1.026 estudantes de medicina de 74 universidades de todo o Brasil
  • 40,3% da rede pública (413 alunos) e 59,7% da particular (611 alunos)
  • 66,0% dos estudantes (676 alunos) apresentaram sintomas de depressão de moderada a grave
  • 50,5% dos estudantes (517 alunos) apresentaram sintomas de ansiedade de moderada a grave

noticia por : UOL

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