'Visitando Sr. Green' não brilha em nova versão como as anteriores

Remakes estão na moda. E não é só na televisão; nos palcos também. Obviamente, os clássicos precisam ser revisitados de tempos em tempos. Coisa que o teatro paulistano, aliás, faz pouco.

Mas não é esse o caso de “Visitando o Sr. Green” —uma peça norte-americana, lançada em 1996, e que já mereceu três montagens na cidade. Atualmente em cartaz no Teatro Renaissance, a obra estreou no Brasil, em 2000, com Paulo Autran e Cassio Scapin como protagonistas.

O próprio Autran se encantou com o texto, apresentado a ele por uma amiga, e dedicou-se a traduzi-lo e montá-lo. Em 2015, foi a vez de Sérgio Mamberti interessar-se pela trama e ficar mais de cinco anos em cartaz.

Agora, é Elias Andreato —que dirigiu Autran na primeira versão— quem retorna no papel do ranzinza Sr. Green, um judeu ortodoxo, de 86 anos, que tem sua vida transformada pelo encontro com o jovem executivo Ross, papel de Johnny Massaro.

Sob a direção de Guilherme Piva, Andreato empreende uma bonita apropriação do personagem. Sem seguir exatamente os caminhos já trilhados pelos veteranos Mamberti e Autran, entrega uma interpretação fresca —repleta da sua teatralidade e do seu humor.

Dirigindo em alta velocidade, Ross quase atropela Green. O idoso escapa do acidente, mas o caso vai a julgamento e o juiz determina que o motorista passe a visitá-lo semanalmente, em uma espécie de pena alternativa.

Solitário, após a morte da mulher, Green não tem familiares nem amigos e recebe muito mal a ideia de um estranho em sua casa. A princípio, ambos só estão interessados em se desvencilhar da situação: um cumprindo a ordem judicial e o outro expulsando o intruso.

Muito do sucesso de “Visitando o Sr. Green” ao redor do mundo —o texto já foi montado em mais de 50 países— pode ser creditado a dois aspectos. Primeiramente, a oportunidade que oferece aos intérpretes para que se apropriem dos personagens e com eles passeiem pela emoção e pela comicidade.

Em segundo lugar, sua própria forma dramatúrgica, que evoca a tradição do teatro em língua inglesa. Como no melhor da literatura dramática norte-americana, Jeff Baron privilegia uma comunicação efetiva, buscando diálogos claros e diretos cujo impacto no espectador é certeiro.

O conflito geracional aparece na primeira camada do enredo. Com suas visões de mundo destoantes, velho e jovem não se entendem. E é propriamente a interdição desse entendimento que captura o público de imediato para seguir atento aos desdobramentos da história.

Ingrediente comum às comédias de costume, a rusga intergeracional vai ganhando densidade quando segredos e dificuldades familiares são revelados.

A intolerância é o tema central de “Visitando o Sr. Green”, causadora dos sofrimentos que paralisam as vidas dos dois protagonistas. Aquilo que cada um omite do outro, o não-dito, empresta às duas interpretações uma porção extra de dramaticidade.

Ainda que estejam muito apegados a seus papéis sociais, as personalidades de Green e Ross parecem merecer nuances a cada nova cena, um percurso de amadurecimento e descoberta que a plateia se vê convidada a compartilhar.

Sem muita invenção no que se refere à encenação, a direção de Guilherme Piva segue pelo seguro caminho de valorizar, sobretudo, os intérpretes. Johnny Massaro sustenta momentos delicados, como as revelações que faz sobre sua relação disfuncional com a família.

E Andreato comanda o jogo com destreza. Um pouco pelo seu amplo domínio e conhecimento da peça, outro tanto pela sua tarimba em conduzir a audiência. Sem precisar quebrar a quarta parede ou pedir a participação de ninguém da plateia, consegue sentir a pulsação do público e incluí-lo no jogo de se contar uma boa história.

Acompanhado por uma luz competente e um sóbrio cenário, Piva peca por não aproveitar bem os respiros oferecidos pelo texto. Pausas e silêncios, longe de serem vazios, são elementos expressivos.

As mudanças de tom entre cada cena poderiam ser feitas com transições mais comedidas, sem a opção pela música em altíssimo volume a cada passagem que se encerra. Mas trata-se de uma abordagem da direção e da equipe criativa que certamente não comprometem a fruição do espetáculo.

noticia por : UOL

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