Quem acha isso um absurdo, vale lembrar que foi só em 2013 que o Congresso aprovou uma emenda constitucional equiparando as empregadas domésticas ao restante dos trabalhadores, o que ainda provoca muito ranger de dentes em setores da sociedade. Não foi ideia brilhante do parlamento, mas ocorreu após a Organização Internacional do Trabalho aprovar a convenção 189 com esse tema.
Do ponto de vista de parte do andar de cima, somos um transatlântico reluzente, com cabines diferenciadas, da primeira à terceira classe, de acordo com os esforço de cada um em comprar sua passagem – mesmo que aquilo que chamam de “meritocracia” seja hereditária por aqui.
A imagem é uma autoficção, claro, pois nunca deixamos de ser um navio que trafica mão de obra e que, ao primeiro sinal de tempestade no horizonte, aumenta a frequência do estalar do chicote sobre trabalhadores, enquanto os donos do empreendimento ficam protegidos, ouvindo violino e bebendo uísque .
Não estou entrando no mérito de como chegamos a essa situação, nem propondo uma revolução imediata para que cabines diferenciadas deixem de existir. Mas é fundamental que, se quisermos usar a analogia que estamos todos no mesmo barco, a terceira classe conte com a garantia de um mínimo de dignidade em tempos difíceis e a primeira classe pague passagem de forma proporcional e progressiva à sua renda.
Quem acompanha a coluna sabe que defendo que um pacote, para ser justo, deve aprovar uma pancada maior primeiro em quem ganha mais, protegendo o máximo possível os que sempre se lascam. A questão aqui não é deixar de aprovar medidas austeras, mas socializar a chicotada.
Claro que tirar dos ricos, cobrando deles uma porcentagem de Imposto de Renda pelo menos semelhante ao que paga a classe média baixa, não vai resolver as questões fiscais do país.
noticia por : UOL
