Poluição luminosa gerada por satélites ameaça imagens de telescópios como o Hubble

A expansão do número de satélites em órbita baixa da Terra nos últimos anos promoveu benefícios para a vida no planeta, a exemplo do acesso à internet em áreas remotas, mas levou a um aumento na poluição luminosa que ameaça o funcionamento de telescópios espaciais.

Um estudo liderado pela Nasa, publicado nesta quarta-feira (3) na revista Nature, estima que uma parcela das imagens obtidas por esses observatórios na próxima década poderá ser comprometida pela luz emitida ou refletida por satélites.

Isso pode ocorrer com 40% das imagens feitas pelo Hubble e com 96% das geradas pelo Spherex, ambos da Nasa. Esta última porcentagem, mais alta, também se aplicaria ao Arrakihs, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), e ao Xuntian, da China, ambos ainda em planejamento.

O Hubble seria menos afetado devido ao seu campo de visão mais restrito, segundo os pesquisadores.

Telescópios em órbita são vitais na exploração espacial. Eles podem observar uma gama mais ampla do espectro eletromagnético do que telescópios terrestres, e a ausência de interferência atmosférica permite que obtenham imagens mais nítidas do Cosmos, possibilitando a captura direta de imagens de galáxias distantes ou de planetas além do nosso Sistema Solar.

“Antes a maior parte da poluição luminosa vinha de cidades e veículos, mas o aumento das constelações de satélites de telecomunicações está rapidamente começando a afetar observatórios astronômicos em todo o mundo”, afirmou o astrônomo Alejandro Borlaff, do Centro de Pesquisa Ames da Nasa na Califórnia, autor principal do estudo.

“Quando os telescópios observam o Universo à procura de galáxias distantes, planetas e asteroides, os satélites às vezes passam na frente de suas câmeras, deixando traços brilhantes de luz que apagam o sinal tênue que recebemos do Cosmos. Esse já era um problema conhecido para telescópios terrestres. Mas, até agora, acreditava-se que os telescópios espaciais, muito mais caros e colocados em pontos de observação aparentemente intocados no espaço, estavam quase livres da poluição luminosa causada pelo homem”, acrescentou o pesquisador.

Em 2019, havia aproximadamente 2.000 satélites em órbita baixa da Terra. Hoje, eles somam cerca de 15 mil. Esse número pode subir para 560 mil na próxima década, se os lançamentos planejados por empresas forem concretizados.

“Para dar uma ideia de quanto esse número aumentou recentemente, lançamos mais satélites para a órbita baixa da Terra nos últimos quatro anos do que nas sete décadas anteriores de voos espaciais combinadas”, afirmou Borlaff.

Os pesquisadores utilizaram informações de operadores de satélites para simular as camadas orbitais de cada constelação de satélites, entre os quais do Starlink, do Guowang, da China, e da Amazon. Eles então consideraram propriedades específicas dos telescópios, como altitude orbital, trajetória, campo de visão e outros fatores.

“Uma vez que tínhamos os telescópios simulados observando nosso Universo simulado, só precisávamos contar o número de vezes que os satélites ‘invadiam a foto’ de nossos observatórios e quão brilhantes eles estavam quando isso acontecia”, disse Borlaff.

Os satélites refletem e emitem múltiplos tipos de luz.

“Eles refletem diretamente a luz do Sol, com seus painéis solares, a da Lua e a da Terra, que é muito brilhante a partir da órbita baixa da Terra. Além da luz óptica, os satélites emitem radiação infravermelha gerada pela temperatura de seus componentes e também refletem comprimentos de onda de rádio tanto da Terra quanto das próprias antenas”, afirmou o astrônomo.

Os pesquisadores afirmaram que uma saída seria implantar satélites em órbitas mais baixas em relação à faixa onde os telescópios operam. Contudo, isso poderia deteriorar a camada de ozônio.

Telescópios mantidos em órbitas mais distantes estão mais bem protegidos da poluição luminosa. O estudo, por exemplo, não analisou os efeitos dos satélites no telescópio James Webb, da Nasa, no Euclid, da ESA, ou no Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da Nasa —este último ainda não foi lançado.

Suas órbitas estão muito mais distantes da Terra do que os satélites de telecomunicações. “Por esse motivo, eles provavelmente não serão afetados por esse tipo de contaminação, por enquanto”, afirmou Borlaff.

Mas esses telescópios fornecem só uma fração das observações astronômicas. “Eles são usados apenas para objetivos científicos muito específicos e têm tempo operacional muito limitado”, disse o pesquisador.

Efeitos da IA

Os autores do estudo sugerem que a opção mais lógica seria reduzir o número de lançamentos. Mas a competição entre empresas e as crescentes necessidades de dados para inteligência artificial tornam isso pouco provável.

Atualmente, quase três quartos dos satélites em órbita pertencem ao sistema de internet Starlink, segundo Borlaff. No entando, estima-se que em cerca de 20 anos o serviço da empresa de Elon Musk responderá por apenas 10% do total.

Na avaliação de Borlaff, as empresas poderiam fornecer dados sobre a localização, a orientação e a cor de seus satélites para ajudar os operadores de telescópios espaciais.

O astrônomo também chama a atenção para o tamanho crescente desses objetos. A olho nu, os satélites com uma superfície superior a cem metros quadrados são “tão brilhantes quanto a estrela mais brilhante que se pode ver no céu”.

Porém, para atender às necessidades de desenvolvimento da IA, já existem projetos de satélites com mais de 3.000 m² que seriam “tão brilhantes quanto um planeta”.

noticia por : UOL

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