Mostra de Tiradentes abre em clima de guerrilha e com elegia ao Carnaval

Foi difícil não sentir um clima de guerrilha durante a exibição de “Estopim”, terceiro longa do paraibano Tiago A. Neves, exibido na noite do último sábado, na Mostra de Cinema de Tiradentes, como parte da seção Autorias.

Começou com atraso, depois de problemas com o gerador da tenda onde os filmes em competição são exibidos terem também interrompido uma conversa sobre os 80 anos do cineasta Julio Bressane, com direito a uma participação de Miguel Falabella, o Júlio César de seu longa “Cleópatra”, de 2007.

E se, na sua superfície, o filme de Neves não busca qualquer aproximação com o do diretor carioca, eles, ainda assim, se encontram no aspecto que guia a seleção —o desafio à autoria centrada numa pessoa.

Nascido da união de dois coletivos, “Estopim” chama a atenção por inventar com os recursos do seu entorno nos espaços privado e público. E, por isso, o longa pode —ou não— ganhar o espectador logo no primeiro dos seus sete capítulos em plano-sequência, isto é, longas tomadas sem cortes. No início, vemos, do banco de trás de um carro, Márcia, papel de Ingrid Castro, pelas ruas de João Pessoa com o pai, Geraldo, vivido por Osvaldo Travassos.

Prostitutas oferecem seus serviços à luz dos sinalizadores policiais no que parece ser o centro degradado da cidade. Até que Márcia deixa o idoso, atônito, com um grupo dessas mulheres. Ela dirige um bocado e decide voltar.

Na verdade, o que fez foi provocar uma de suas irmãs, Nilda, papel de Nica Bezerra, que vive na noite e em nada tem ajudado a cuidar do velho pai demente.

Elas brigam, Márcia diz não aguentar mais os desmandos e alucinações do pai. A outra diz que não consegue chegar perto dele sem querer vomitar —fala de traumas de infância, de como ele maltratava a mulher.

Sem chegarem a um acordo, Márcia arranca, e a mais jovem se machuca na rua. A câmera vê, espiando da janela traseira, como Márcia sai do carro, a acolhe, vão cuidar da ferida em casa, coisa e tal.

É então que a câmera revela a quieta Aninha, menina que fora sem aviso os olhos do público nesta cena de pelo menos uns cinco minutos. E se seguem outros planos, conduzidos pelo elenco notável, deixando o espectador à espera de uma surpresa a cada esquina.

E serão muitas, de carro ou a pé, indo da cozinha para a sala de estar de uma casa de classe média baixa, tudo embalando a degradação de uma família de mulheres em torno desse pai patrão.

A eficácia desses episódios dependerá da disposição do espectador a ver dramas sobre a perpetuação do machismo em interpretação naturalista e um pouco irregulares em seu texto e mise-en-scène.

Por exemplo, ainda no início, a direção põe a câmera num tripé, e decide apenas rodar a lente no mesmo eixo para observar um dia de Nilda cuidando do pai. Mas enquanto ele tenta sintonizar seu rádio e dançar sozinho um forró, a filha se põe a vomitar ressentimento enquanto limpa as fezes do pai, com um estado de saúde que não permite senão a ignorar a filha. Não raro se flerta com o exagero e com um artificialismo que, felizmente, não contamina outras partes do filme.

É quando a equipe se põe a sair filmando pela rua, desvairada. Se salvam do conjunto uma sequência de fuga em direção ao mar e as duas belas cenas finais, num percurso de tragédia e redenção, dignas do bom cinema amador. Isto é, daquele feito com amor, independente dos seus recursos materiais.

A aura de guerrilha não se manteve tão evidente na exibição seguinte. O filme que fechou a noite de sábado, “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, do Rio de Janeiro, é uma produção muito bem planejada e orquestrada. Aqui vemos o último dia de uma escola de samba, a falida Unidos da Guanabara, que tem como mascote uma baleia, e os antecedentes que a trouxeram ao seu fim.

A baleia é um elemento central de um carro alegórico que se dirige a um depósito de descarte e reaproveitamento de estruturas cenográficas carnavalescas —um cemitério de alegorias. No caminho, dobram uma esquina errada e acabam sem querer passando pela Marquês de Sapucaí, onde se dá o último momento de glória daquela escola de samba comandada por um rei que nunca quis a coroa nem gostou disso.

O longa faz um esforço para não se definir. Os diretores Felipe M. Bragança e Marina Meliande chamam sua obra de “filme-experimento”. A determinada altura, um personagem se dirige à câmera e provoca, dizendo “e quem pensar que isso aqui é uma alegoria, não entendeu nada”. Além desse formato linear, a obra pode ser vista como instalação.

Mas, pelo menos nessa versão exibida em Tiradentes, o filme se constrói com arestas bem definidas. E são belas essas arestas, de um apuro técnico notável.

As atuações, os enquadramentos, o figurino, a trilha, os letreiros, a fotografia, as referências a “Moby Dick” e a estrutura linear se encaixam geometricamente num clima de melancolia solar, permeado pelos tons de amarelo. Tudo bem planejado e coreografado.

O rigor técnico da produção contrasta com a essência mambembe dessa escola de samba moribunda, numa suposta contradição que se encaixa nesse território contraditório que é o Carnaval carioca.

Mais cedo no sábado, houve a grata exibição de “Papaya”, animação de Priscilla Kellen que faz jus à infância do cinema. Não apenas pelo seu aspecto lúdico para a criançada, hipnotizada pelas cores e gestos do protagonista —uma semente de mamão que enfrentará a natureza fora, justamente, de um mamão. Mas sobretudo pelo deslumbramento que evoca, à altura de outra animação nacional celebrada, “O Menino e o Mundo”, do diretor, Alê Abreu, que é um dos produtores aqui.

Em vez de um menino, a bolota preta vai do aconchego ao lado da mamãe mamoeiro às desventuras de uma indústria agrícola perversa, que quebra todos os ciclos da natureza. Em meio à mensagem ambiental, o filme sem diálogos metaforiza as dores do crescimento e os sacrifícios que se faz para alcançar seus sonhos. Papaya, no caso, guarda em si mais que a vontade de dar frutos —quer voar. Mas para isso, terá de entender sua própria natureza.

Após passar por outros eventos no Brasil, a produção será exibida ainda no Festival de Berlim e, segundo a equipe, deve ter uma data de lançamento comercial em breve.

Os jornalistas viajaram a convite da Universo Produção

noticia por : UOL

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