“É fundamental reconhecer que se a desigualdade social brasileira fosse uma parede, o racismo seria o seu concreto.” Naquele 20 de novembro de 2023, a economista Roseli Faria defendia, no lançamento de um pacote de medidas do governo federal, mais políticas de inclusão e diversidade.
A trajetória da economista, que nos últimos anos trabalhou como analista de planejamento e orçamento do governo federal, foi estritamente ligada à valorização da diversidade racial no serviço público, começando pela sua própria trajetória universitária no curso de economia da USP, no começo dos anos 1990.
“Eu saio do ensino médio, em que havia uma diversidade racial e de classe, e entro para uma universidade extremamente elitista. Dos 90 alunos da minha turma, eu era a única mulher negra”, disse ela em uma entrevista a um podcast da Enap (Escola Nacional de Administração Pública).
Na época, a família vivia em Sorocaba, no interior paulista. Para que Roseli fizesse o vestibular, os pais, Alcides e Maria, fizeram dois empréstimos. Um para o cursinho preparatório, outro para uma prova do Banco do Brasil.
Aprovada nos dois, iniciou uma rotina frenética de aulas na USP no Butantã, na zona oeste da capital paulista, trabalho no banco em Santo Amaro, na zona sul, e a volta para casa, em Osasco, onde morou durante o tempo de universidade.
Mas a então estudante e bancária via um lado positivo nas longas jornadas de transporte público: permitiram a leitura de todos os volumes de “O Capital“.
É o que conta o engenheiro Mauricio Baruchi, 55, então amigo de faculdade, que reencontraria a economista 24 anos depois ao assistir a uma live durante a pandemia de Covid-19, na qual ela falava sobre orçamento público. “Com esse sorriso, falando desse jeito, só pode ser a Roseli.”
Após o reencontro, tornaram-se companheiros até o fim da vida dela.
Após juntar dinheiro, Roseli se demitiu do Banco do Brasil e ficou um ano estudando inglês no Reino Unido. De volta ao Brasil, fez carreira no mercado até 2004. Nos anos seguintes, abriu um negócio, morou nos EUA e no México, viu as finanças apertarem, perdeu os pais e se agarrou aos estudos novamente para se reerguer.
Após voltar ao serviço público federal em 2012 como analista de planejamento e orçamento, Roseli continuou a falar e a se empenhar por mais diversidade racial. Trabalhou, inclusive, pela criação das cotas no serviço público e pela criação das comissões de heteroidentificação. Além disso, auxiliou no financiamento da educação dos irmãos.
Ajudou a criar o Prêmio Orçamento Público, Garantia de Direitos e Combate às Desigualdades, da Fundação Tide Setubal, e também foi candidata a deputada federal pelo PSOL em 2022.
Nascida em 14 de agosto de 1971 em Ibaiti, no Paraná, Roseli Faria morreu em 11 de setembro, aos 54 anos, em decorrência de um câncer colorretal. Entre as muitas homenagens estão as de ministérios, do presidente Lula (PT) e de associações dos setores em que trabalhou.
Deixa Mauricio e os irmãos Elias e Dimas. O prêmio de orçamento público agora se chama Roseli Faria, e um novo auditório na Esplanada dos Ministérios também levará o nome dela.
noticia por : UOL
