Nos últimos dias, o vídeo do influenciador Felca sobre a adultização de menores na internet –com 45 milhões de visualizações– sacudiu o debate público e já motivou mais de 30 projetos de lei no Congresso. Ele acerta em vários pontos. É justamente a partir desses acertos que quero trazer dois aspectos que, acredito, ainda não estão suficientemente claros para pais, mães e educadores.
1. Entendendo o modelo de negócios
Ainda é comum enxergar redes como Instagram ou TikTok apenas como “álbuns digitais” ou espaços de conexão entre pessoas e seus seguidores. Mas, no fundo, estamos falando de um imenso bazar de conteúdo, onde se paga com atenção, dados e dinheiro.
Não há problema intrínseco nesse modelo –desde que em conformidade com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), o Marco Civil da Internet e outras leis. Ele movimenta bilhões de reais, gera oportunidades econômicas e dá visibilidade a vozes antes excluídas do debate público.
A questão é: onde ficam as crianças nesse mercado? Elas estão presentes tanto como consumidoras de conteúdo –pagando com sua atenção e dados– quanto como o próprio produto deste bazar, quando sua imagem e rotina viram material de engajamento.
O problema é que crianças não têm estrutura emocional ou cognitiva para lidar nem com o que consomem nem com o peso de se tornarem conteúdo.
2. O papel dos influenciadores
O Brasil tem uma das culturas de influência digital mais fortes do mundo. Tanto em número absoluto de criadores como em impacto sobre o debate público –inclusive político e partidário.
O influenciador é, basicamente, alguém que cria conteúdo com alto poder de comunicação e persuasão, capaz de atrair atenção e moldar opiniões, comportamentos e decisões de consumo. A monetização pode vir de publicidade, parcerias com marcas, participação em receitas de anúncios ou até venda de produtos próprios.
O problema é que, na maioria dos casos, esse criador não tem formação ou obrigação de saber sobre adequação de conteúdo para diferentes idades. E o compromisso com a segurança de marca (“brand safety”) também varia bastante. A proliferação de parcerias com empresas de apostas (bets) é um exemplo notório.
Por isso, é simples: criança não deve consumir conteúdo de influenciador. Faltam maturidade cognitiva, regulação emocional e capacidade de ponderação.
A internet abriga produções de alta qualidade, que podem ser aliadas valiosas no desenvolvimento infantil, especialmente em um contexto em que a programação televisiva aberta brasileira oferece cada vez menos opções para diferentes faixas etárias.
E, para os pequenos, as recomendações são claras: pais e cuidadores devem optar por conteúdos de baixo estímulo –que evitem excesso de luzes, sons e mudanças rápidas de cena– e sempre verificar a indicação etária do material, garantindo que o consumo seja apropriado para cada estágio de desenvolvimento da criança.
Escolhas conscientes podem transformar o tempo de tela em uma experiência positiva e enriquecedora, mas é preciso uma atuação ativa de supervisão do que a criança consome. E para isso, é preciso educar o adulto na sala.
3. Uma responsabilidade compartilhada
Proteger crianças na internet não é tarefa de um só ator. É responsabilidade compartilhada entre famílias, educadores, plataformas, anunciantes e o próprio Estado. Não se trata de demonizar redes sociais ou influenciadores, mas de compreender o ambiente em que nossas crianças estão imersas e agir de forma preventiva.
O vídeo de Felca foi um gatilho importante. Mas, para além da indignação momentânea e das respostas legislativas apressadas, precisamos de um debate educativo e profundo sobre como as plataformas funcionam, o papel dos influenciadores, como capacitar pais, cuidadores e educadores para exercerem uma supervisão efetiva e, principalmente, sobre o direito das crianças de crescerem longe de pressões e expectativas que não lhes cabem.
noticia por : UOL
