POLÍTICA

Vorcaro pediu a ex-diretor do BC que pressionasse Caixa em caso de aporte barrado no Master

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Vorcaro pediu a ex-diretor do BC que pressionasse Caixa em caso de aporte barrado no Master


Brasília


O ex-banqueiro Daniel Vorcaro pediu ao ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza para que a autoridade monetária pressionasse a Caixa Econômica Federal após a revelação de que o braço de investimento da estatal, a Caixa Asset, havia afastado técnicos contrários a uma aplicação em papéis do Banco Master.

Três funcionários da subsidiária da Caixa perderam os cargos, em julho de 2024, após se posicionarem contra uma compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. O pedido de Vorcaro era para que o BC pressionasse o banco estatal a emitir uma nota contrariando o posicionamento do corpo técnico da sua subsidiária.

Caso a compra tivesse sido realizada, a Caixa estaria hoje entre os credores do Master, liquidado pelo BC em novembro de 2025, já que letras financeiras não têm cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Homem de cabelos escuros penteados para trás, vestido com terno preto, camisa branca e gravata cinza, segura microfone com a mão direita enquanto fala sentado em cadeira branca. Ao lado direito, há uma garrafa de água e um copo sobre uma mesa pequena. Fundo azul com logotipos da empresa 'esfera' visíveis.

Daniel Vorcaro, do Banco Master, durante seminário em São Paulo

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Rubens Cavallari – 22.abr.24/Folhapress

Na época, Paulo Sérgio era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária. A responsabilidade desse setor é assegurar a estabilidade e a eficiência do setor bancário.

Para isso, monitora se os bancos estão cumprindo as exigências da autoridade monetária, como ter dinheiro em caixa o suficiente para cumprir as obrigações de curto prazo. Esse era o problema enfrentado pelo Master nos meses que antecederam a sua liquidação.

Antes disso, Paulo Sérgio trabalhou como diretor de Fiscalização, entre 2017 e 2023. Ele tinha quase três décadas de serviço no Banco Central quando o caso Master veio à tona.

Em 12 de julho de 2024, após a publicação da primeira reportagem sobre o caso, Vorcaro pergunta a Souza se “o Bacen não pode pedir à Caixa para se posicionar” sobre o caso.

O ex-banqueiro queria que a Caixa afirmasse institucionalmente que o relatório dos técnicos afastados “não representa com veracidade a análise da Caixa completa”. Dessa forma, ele colocaria em descrédito a negativa apresentada pelos funcionários da Caixa Asset.

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Antes que Souza respondesse, Vorcaro afirmou que já tinha falado com alguém da Caixa, sem especificar a origem da informação.

“Eles devem fazer um comunicado dizendo que fizeram queixa-crime de vazamento do relatório e que o relatório não representa a opinião da Caixa”, escreveu o ex-banqueiro.

“Nós já interpelamos a Caixa para incluir na apuração [o vazamento de informações internas]”, respondeu Paulo Sérgio um minuto depois.

Na conversa com Paulo Sérgio, Vorcaro se queixou ainda do impacto que a notícia teria sobre o Master. “Estrago será imenso”, resumiu.

Um pouco antes de pedir a Souza ajuda do BC na intermediação com a Caixa, ele escreveu que o Master já havia perdido uma venda de R$ 400 milhões em letras financeiras de dez anos ao Amapá. “Já estava assinado, aprovado em comitê”, contou.

Captura de tela mostra troca de mensagens entre participantes discutindo perda de aplicação financeira e justificativas relacionadas a uma matéria jornalística. Mensagens mencionam perda de aplicação em título financeiro, aprovação em comitê, preocupações com exposição na mídia e estratégias de comunicação. Texto está em português, com datas e horários visíveis nas mensagens.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e ex-diretor do BC Paulo Sérgio

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Reprodução

O investimento acabou sendo fatiado. No mesmo 12 de julho de 2024, os cinco integrantes do comitê de investimentos do fundo de pensão Amprev (Amapá Previdência) aprovaram por unanimidade um investimento de R$ 200 milhões no Master.

No dia 19 do mesmo mês, uma nova aplicação de R$ 100 milhões foi aprovada. Em 30 de julho, numa terceira deliberação, o comitê validou por unanimidade mais R$ 100 milhões para aplicação em letras financeiras do Master.

Procurada, a defesa do ex-diretor do BC afirma que ele “jamais protegeu interesses de Daniel Vorcaro e jamais recebeu quaisquer vantagens indevidas ou ilícitas em razão de seu cargo, desempenhando suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais”.

Tela mostra troca de mensagens em aplicativo de chat com fundo cinza claro. Mensagens em balões verdes e brancos discutem temas variados, incluindo perguntas e respostas sobre assuntos pessoais e profissionais. Há uma pequena imagem de perfil de uma pessoa em uma das mensagens.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e ex-diretor do BC Paulo Sérgio

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Reprodução

“O Departamento de Supervisão Bancária teve, de fato, interações com a Caixa sobre o tema. Como se tratava da Caixa Econômica Federal, porém, essas interações ficaram a cargo da equipe responsável pela supervisão daquela instituição”, acrescentou.

O Banco Central e a defesa de Daniel Vorcaro não se posicionaram.

A defesa de Paulo Sérgio sustenta que o ex-diretor era o responsável pelos bancos pequenos e médios de São Paulo e, assim, não poderia ter conduzido essas tratativas.

“Em seu depoimento, Paulo Sérgio foi muito claro ao explicar que teve acesso ao parecer da Caixa Asset com um único objetivo: verificar se o documento trazia algum apontamento relevante para a supervisão do Banco Master”, informou a defesa.

O objetivo da venda das letras financeiras à Caixa Asset era diminuir os problemas de liquidez do Master. Com o dinheiro, o banco de Vorcaro poderia pagar compromissos no curto prazo, já que o vencimento das letras que seriam compradas pela Caixa era de dez anos.



Paulo Sérgio Neves de Souza, que era diretor de Fiscalização do Banco Central, apresenta relatório de estabilidade financeira

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Raphael Ribeiro – 10.mai.23/Divulgação BCB

Esse aspecto é ressaltado pela defesa de Paulo Sérgio como algo positivo na atuação dele.

“Esse enquadramento [de liquidez] era, do ponto de vista técnico, de interesse da própria supervisão, que tem o dever de zelar pela solidez e pela estabilidade do Sistema Financeiro Nacional e, por isso, de exigir que todas as instituições cumpram as normas prudenciais. Trata-se de interesse institucional, que em nada se confunde com interesses particulares de Vorcaro”, conclui a defesa.

A Caixa afirmou que “a Caixa Asset é uma coligada do conglomerado com absoluta autonomia e governança para tomar decisões técnicas, judiciais e administrativas”. E reforçou que a compra das letras do Master não foi realizada.

“A Caixa Asset analisa regularmente oportunidades de negócios e adota processo criterioso de avaliação de ativos financeiros. Todas as decisões são submetidas a instâncias de conformidade e governança”, acrescentou.

LINHA DO TEMPO DO CASO

  • 28/05/2024: BC manda ofício ao Master exigindo “adequação da gestão de liquidez”

  • 06/06/2024: Último dia em que o Master tinha ativos líquidos para cobrir 30 dias de vencimentos

  • 13/06/2024: Começam as tratativas com a Caixa Asset

  • 04/07/2024: Data do parecer sigiloso de técnicos da Caixa Asset vetando a operação

  • 08/07/2024: Técnicos perdem os cargos na Caixa Asset

  • 10/07/2024: Paulo Sérgio pergunta sobre o descumprimento do compulsório pelo Banco Master. Vorcaro diz que R$ 2 bilhões entrariam na semana via captação institucional

  • 11/07/2024: Vorcaro diz a Paulo Sérgio que foi questionado sobre “a parceria com a Caixa, que está para sair”

  • 12/07/2024: Imprensa revela o afastamento dos técnicos

  • 16/07/2024: O Globo revela que a oferta total era de R$ 1 bilhão: outros R$ 500 milhões tinham sido oferecidos à Tesouraria da Caixa. Vorcaro diz que as duas operações foram suspensas

  • 01/11/2024: Caixa destitui presidente da Caixa Asset

noticia por : UOL

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