São Paulo
O investimento climático na América Latina e no Caribe duplicou de 2020 a 2024, com um salto de US$ 54 bilhões (R$ 281 bilhões) para US$ 108 bilhões (R$ 563 bilhões). Apesar disso, a verba direcionada a combustíveis fósseis na região supera o dobro do valor aplicado em fontes de energia limpa.
Os dados são da organização Climate Policy Initiative (CPI, na sigla em inglês), que analisou pela primeira vez o financiamento para ações climáticas no continente, em relatório publicado na última semana.
A entidade calcula que projetos de energia renovável na região receberam US$ 43 bilhões (R$ 224 bilhões) em 2024. Por outro lado, o setor de petróleo, carvão e gás natural atraiu US$ 95 bilhões (R$ 495 bilhões) no mesmo ano, segundo a Agência Internacional de Energia.
“É necessário mobilizar novos recursos para a transição climática, mas também redirecionar o financiamento que não está alinhado a ela”, afirma Sean Stout, analista sênior da CPI.

Plataforma de petróleo no porto de Veracruz, no México
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Yahir Ceballos – 24.ago.24/Reuters
Para a organização, a continuidade dos investimentos em fósseis ameaça os avanços no combate ao aquecimento global. A queima de petróleo, gás e carvão é a principal causa da mudança climática em todo o planeta.
“Vamos conviver com algum nível de extração de combustíveis fósseis nos próximos anos. A questão central é o que fazer com as receitas vindas dessa atividade e como usá-las para fortalecer a resiliência”, diz María Sierra, gerente de inovação financeira da CPI para a América Latina.
Felipe Martinelli, líder de transição energética na Arcadis, empresa não envolvida no relatório, afirma que será preciso investir em sistemas de transmissão e armazenamento de energia para estimular as fontes renováveis.
“Não esperamos que os investimentos climáticos substituam os financiamentos a combustíveis fósseis de um momento para o outro. A transição acontece de forma gradual, mas ainda temos um desafio grande para converter o capital disponível em projetos viáveis”, diz.
A expansão do financiamento climático no Brasil puxa os números da América Latina e do Caribe. O país registra aumento de 162,5% nos recursos de 2020 a 2024, principalmente por conta de painéis solares e agricultura sustentável, enquanto a verba aplicada nas demais nações cresceu em 50% no período.
O Brasil concentrou 58% dos investimentos na região em 2024, com US$ 63 bilhões (R$ 328 bilhões).
Os outros países sul-americanos mobilizaram US$ 25 bilhões (R$ 130 bilhões) naquele ano, ao passo que o México atraiu US$ 8 bilhões (R$ 41 bilhões). Nações caribenhas movimentaram US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões), e a América Central, US$ 7 bilhões (R$ 36 bilhões).
O Brasil também lidera quando se analisa o tamanho da população. O investimento climático médio por brasileiro em 2024 foi de US$ 297 (R$ 1.550), quase o dobro dos US$ 164 (R$ 856) por habitante na média de todos os países analisados.
“Faz sentido ao considerar as políticas e o mercado brasileiro, mas a proporção é muito surpreendente”, diz Guillermo Martinez, analista sênior da CPI.
A tendência é de desaceleração dos investimentos verdes na região, uma vez que os US$ 108 bilhões de 2024 ficaram abaixo dos US$ 110 bilhões (R$ 574 bilhões) registrados em 2023.
A CPI calcula que o financiamento climático precisará crescer ao menos cinco vezes até 2030 para a América Latina e o Caribe cumprirem as metas de emissões de carbono. O montante anual mínimo necessário é de US$ 467 bilhões (R$ 2,4 trilhões), segundo a organização.
A entidade lista recomendações para preencher essa lacuna, como fortalecer os sistemas financeiros, atrair mais capital privado e alinhar as finanças públicas às metas de carbono.
Projetos de mitigação, que reduzem as emissões de gases do efeito estufa, receberam US$ 85 bilhões (R$ 443 bilhões) na região em 2024, 78,7% do total. Metade dos recursos foi para sistemas de energia, enquanto o setor de florestas e agricultura recebeu 29%.
O investimento em adaptação, área voltada a preparar as cidades para enfrentar os eventos climáticos extremos, é de apenas US$ 13 bilhões (R$ 67 bilhões), ou 12%. Iniciativas que envolvem tanto mitigação como adaptação somaram US$ 10 bilhões (R$ 52 bilhões), cerca de 9%.
No Brasil, 9% dos recursos vão para a adaptação —o menor percentual de financiamento para a área em toda a região. No Caribe e na América Central, o investimento em adaptação alcança 16% e 21%, respectivamente.
Metade do financiamento climático em 2024 veio de cofres públicos, com US$ 54,8 bilhões (R$ 286 bilhões). A outra metade teve origem em aportes privados, que somaram US$ 53,4 bilhões (R$ 278 bilhões).
O quadro não é uniforme entre os países. Enquanto 66% dos recursos no Brasil são privados, o financiamento público predomina no restante da América do Sul, com 62% do total. Nas nações caribenhas, 75% da verba é pública, e o percentual alcança 77% na América Central.
O relatório afirma que a distribuição do capital é compatível com mercados menores e riscos mais elevados, que reduzem a atração de investimentos privados.
A análise também detalha se o investimento tem origem no próprio país ou em outras nações. Aportes internacionais prevalecem no Caribe, onde 58% do financiamento vêm do exterior. No Brasil e no México, os recursos domésticos respondem por 89% e 64% do total, respectivamente.
“Onde os mercados locais são mais maduros, predomina o capital nacional; onde os mercados são menores e/ou os riscos percebidos são maiores, o financiamento internacional tem maior destaque”, diz a CPI.
Com exceção do Brasil e do México, a América Latina e o Caribe ainda dependem de financiamento público internacional. Em 2024, os recursos vindos de países de fora da região somaram US$ 25,6 bilhões (R$ 132,4 bilhões), o equivalente a 23% de todo o investimento climático local naquele ano.
Os empréstimos são a principal forma de financiamento público internacional e podem se tornar armadilhas para nações endividadas e incapazes de quitá-los no futuro.
Além disso, guerras e trocas de governos afetam o fluxo de capital estrangeiro. De 2023 a 2024, o financiamento público internacional ao continente caiu 3%, e os pesquisadores dizem que há chance de uma nova queda em 2025.
“Em meio à mudança nas prioridades dos doadores, à redução da assistência oficial ao desenvolvimento e ao aumento do endividamento dos países da América Latina e do Caribe, a região precisa ampliar sua base de recursos”, afirma o relatório.
noticia por : UOL