Multifranqueados ganham força com estratégias para reduzir riscos e custos

Carmine Ribeiro cresceu vendo o pai trabalhar em um pequeno comércio de bairro em São Luís (MA), experiência que despertou nela o desejo de empreender. Ela se formou em farmácia e trabalhou em grandes redes, mas o desejo era outro: ser também comerciante, e não farmacêutica.

Em 2009, abriu uma loja de calçados infantis por conta própria. Nessa etapa, aprendeu que tocar um negócio sozinha significava cuidar de todas as áreas da operação: do marketing às compras.

As coisas mudaram em 2019, quando um franqueado da Bibi, maior rede de calçados infantis da América Latina, decidiu repassar lojas na capital do Maranhão. Carmine assumiu três unidades de uma vez. A mudança trouxe uma mentalidade nova: deixar de ver o cotidiano como um trabalho de gerência e assumir uma posição mais estratégica de empresária.

“Quando você tem mais lojas, você tem que fazer os processos se replicarem”, afirma. “O que eu luto hoje é para que todas as lojas tenham os mesmos processos, os mesmos princípios, a mesma cultura.”

Ela é um dos exemplos de donos de loja que se mudaram para o modelo de multifranquia no Brasil. Segundo a Pesquisa Trimestral de Desempenho do Franchising, divulgada pela ABF (Associação Brasileira de Franchising) em setembro de 2025 —o levantamento mais recente com recorte específico sobre o tema, 88% das marcas ouvidas têm multifranqueados em suas redes. Entre os multifranqueados, a parcela dos que também operam mais de uma marca saltou de 51% para 62%.

Carmine é uma multifranqueada multimarcas, já que opera com as bandeiras Bibi, Artex e Vans. A trajetória difere da de Kelvin Lopes, que também se tornou multifranqueado, mas crescendo dentro da própria operação: foi vendedor, gerente e gestor de loja na Casa do Celular, ainda antes de a marca virar franquia.

Mais tarde, ocupou cargos estratégicos na franqueadora. A experiência o preparou para comprar sua primeira loja, no Shopping Internacional de Guarulhos, em 2023, e, pouco tempo depois, tornar-se franqueado master em São Paulo, responsável por coordenar a expansão da marca no estado. Nos últimos dois anos, foi de uma loja para 20.

A transição também exigiu uma mudança de comportamento. “Conforme você vai crescendo como funcionário, você tem uma mentalidade focada em uma função”, diz. Para ele, virar franqueado master significou entender não apenas as dificuldades de estrutura de loja, mas do negócio em si.

Essa mudança de posição, de operador de loja a gestor, é o que define um multifranqueado e o novo modelo de negócio, diz Cristy Martins, diretora de franqueados da ABF.



Ser um multifranqueado não é ter mais lojas, é uma mudança de perfil. Você deixa de operar uma unidade e passa a ser gestor de lideranças intermediárias, com uma estrutura por trás, capacidade de ler indicadores, ter uma governança maior e criar uma cultura organizacional

Com mais de uma operação, o franqueado consegue comparar o gasto entre lojas, identificar onde está pagando mais caro e revisar processos mais rapidamente. Janaína Camilo, coordenadora de franquias do Sebrae Nacional, fala em escalabilidade: a possibilidade de crescer faturamento sem recomeçar do zero a cada nova unidade, aproveitando o aprendizado e os erros já corrigidos na primeira operação.

A relação com as franqueadoras traz benefícios compartilhados. Com mais proximidade dos fornecedores da região, o multifranqueado passa a ser parceiro estratégico de expansão. Mesmo os shoppings, diz Cristy, passam a tratar quem tem portfólio como peça decisiva do negócio, não como mais um lojista.

A atividade de multifranquias exige, por outro lado, mais do que uma mudança de mentalidade e de um bom histórico de desempenho na operação. Um dos maiores desafios hoje é financeiro, seja pela necessidade de capital próprio, seja pelo acesso a crédito suficiente para sustentar o período de maturação de cada nova unidade.

O bolso do consumidor, na ponta da cadeia do varejo, também responde a esse cenário. Kelvin sente o efeito do crédito restrito e dos juros altos no Brasil em uma camada mais baixa da população, mais sensível às mudanças macroeconômicas. Ele diz que clientes que antes compravam aparelhos de maior preço hoje optam por modelos intermediários. Para não perder esse público, a rede mantém parceria com financeiras voltadas a quem está negativado.

A diversificação por marca ajuda a distribuir o risco. “As marcas são cíclicas. Por isso é interessante não colocar todas as suas fichas numa só, às vezes uma está lá em cima e outra embaixo”, diz Carmine. Kelvin diversifica de outro jeito: concentra uma marca, mas em escala territorial. “Tenho um controle de área, consigo fazer um atendimento padrão para um estado inteiro.”

Para quem expande, cada nova operação exige o mesmo esforço de investimento que foi necessário desde o primeiro negócio. Sem controle financeiro, o passo seguinte costuma ser buscar recursos mais caros no mercado. “Se o empresário trabalha no limite da capacidade financeira própria, não faz sentido abrir mais [unidades]”, diz Janaína.

Foi exatamente ao fazer esse cálculo que Carmine decidiu segurar a expansão. Hoje, o maior objetivo da empreendedora é consolidar as lojas que existem e trabalhar pelo crescimento com as marcas já em atividade, em vez de incorporar ou abrir novos negócios.

O multifranqueado da Casa do Celular também seguiu o caminho conservador, mas já estuda os próximos passos. “Eu já iniciei o ano com essa redução de expansão acelerada para maturar as equipes que eu tenho e entender mais da região, mas vamos começar a expandir mais dez unidades a partir de julho”, diz.

noticia por : UOL

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