'La Bola Negra' e 'Coward', em Cannes, confrontam a guerra com amores gays

Em uma competição recheada de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial ou suas consequências neste Festival de Cannes, “La Bola Negra” não é só mais um. O primeiro filme dos espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, que receberam a benção de Pedro Almodóvar, coprodutor do filme, evita os caminhos da assepsia ou da brutalidade, escolhidos pelos concorrentes “Moulin“, “A Man of His Time” e “Fatherland“, e é um dramalhão de guerra.

Outro diferencial é que o filme narra o conflito pela perspectiva de homens gays. Três linhas do tempo são apresentadas paralelamente, logo no começo do longa. A primeira é a de Sebastian, um trompetista que é recrutado pelo exército fascista de Francisco Franco depois de seu povoado ser bombardeado pelos italianos, em 1937. No futuro, nos dias de hoje, há Alberto, dramaturgo que tem uma relação difícil com a mãe e tem apenas encontros sexuais casuais marcados por aplicativo de paquera.

A terceira história se passa no começo da década de 1930. Carlos, um rapaz na casa dos 20 anos, tenta ingressar como membro de um prestigioso cassino na cidadezinha de Granada para agradar ao seu pai —mas é recusado. Os boatos que correm pelas vielas são de que ele não é másculo o suficiente.

A trama de Carlos é baseada no conto “La Bola Negra”, primeira e única novela do renomado escritor Federico García Lorca com um personagem abertamente gay. O autor foi assassinado pelos fascistas em 1936, e o texto nunca foi terminado.

No filme, é esse conto que une os personagens separados por décadas. Um dia, Alberto recebe a notícia de que seu avô materno, Sebastián, que ele não conhecia, morreu e deixou para ele algo no testamento. É o manuscrito de “La Bola Negra” e um bilhete endereçado a um tal de Rafael.

O filme se desenvolve conforme Alberto investiga como o avô conseguiu a novela de Lorca, enquanto acompanhamos, na tela, a linha do tempo da vida de Sebastian. Ambrossi e Calvo também inventaram um final para o texto que, na vida real, nunca acabou. O longa conta ainda com um trabalho memorável de Penélope Cruz como performer de um cabaré.

Além do drama comovente, como há de se esperar pelo tema, e da estética de época bem elaborada, o filme “La Bola Negra” reflete sobre os acontecimentos que são enterrados em períodos turbulentos da história, e como a criação pode se tornar uma flâmula de esperança para um futuro melhor.

Em uma toada parecida, “Coward”, de Lukas Dhont, também em competição, acompanha dois soldados belgas no front da Primeira Guerra. Pierre era agricultor antes de entrar no exército, e Dhont consegue transmitir certa inocência e virilidade forçada do personagem sem precisar de diálogos muito expositivos.

Os colegas dizem que Pierre é calado, mas quando fala é cirúrgico. Em uma conversa em que tentam definir os desertores, ele diz, “covardes”, por exemplo, e é festejado pelos outros.

Nos momentos fora das trincheiras, os soldados mais parecem crianças. Pregam peças uns nos outros, nadam nus ou cantam em coro músicas patrióticas.

Mas Pierre fica perturbado conforme é exposto aos horrores da guerra, como carregar cadáveres de seus camaradas. Ele então conhece Francis, líder de um grupo de soldados designados a criar espetáculos e entreter os combatentes.

Além de Francis, Pierre também se apaixona pelo teatro. O romance entre os dois é delicadamente desenvolvido em tela —algo que Dhont já fez, em menor escala, em “Close“, que ganhou o grande prêmio do festival em 2022.

Enquanto descobrem refúgio um no outro, Pierre e Francis entram em conflito sobre até que ponto os espetáculos são para distrair os soldados, ou se são a forma que os dois encontraram de expurgar a sua própria dor. Mais sóbrio do que “La Bola Negra”, “Coward” não perde força em defender outro mundo possível e menos truculento frente a tempos brutais.

noticia por : UOL

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