Aos 60 anos, Ira Sachs já se estabeleceu como um dos cineastas independentes americanos mais conhecidos por retratar a comunidade gay em seus filmes, como “The Delta” e “Love is Strange”. Neste Festival de Cannes, ele exibe na competição “The Man I Love”, sobre um artista com Aids na Nova York dos anos 1980.
O filme acompanha Jimmy, um artista que canta e atua em peças musicais em teatros e bares queer na cidade. Ele mora com o namorado, Dennis, sempre atencioso e excessivamente preocupado —o motivo é que Jimmy tem Aids.
Sachs, porém, dispensa outros retratos já feitos sobre a epidemia de Aids, e não dedica tempo de tela ao adoecimento físico de Jimmy. Pelo contrário, a produção é visualmente agradável, com cenários e figurinos coloridos harmonizados por um filtro de nostalgia.
Afinal, a everfescencia artística da Nova York LGBQTIA+ daqueles anos foi vivida pelo próprio Sachs, e “The Man I Love” é uma homenagem aos artistas da época —especialmente a aqueles que não sobreviveram quando a doença, ainda desconhecida e sem tratamento, se espalhou.
No filme, Jimmy se mantém ativo. Ele treina obsessivamente para uma nova peça, em que se veste de mulher, canta e dança. Ele e Dennis são cercados de amigos também LGBTQIA+ que encontraram uma família uns nos outros. Uma das cenas mais comoventes do longa, musicado do começo ao fim, é quando todos se juntam no entorno de uma mesa para cantar canções que sabem de cor —e muitos entoam versos religiosos ou ritmos country, típicos do interior dos Estados Unidos.
Enquanto isso, Jimmy também se envolve com Vincent —seu novo vizinho, que acabou de se mudar para o apartamento de cima—, um pouco como forma de encontrar intensidade em uma vida que, a qualquer momento, pode chegar ao fim. Ao contrário de Dennis, dedicado a cuidar de Jimmy separando os seus medicamentos diariamente, Vincent não parece levar a gravidade da doença muito a sério.
A obra também é sensível ao retratar a angústia de Dennis, que precisa arcar com certo desleixo de Jimmy, sem deixar de ser compreensivo. Ele é o cuidador, figura por vezes deixada de lado em outras narrativas de época sobre a doença, e também parece sofrer pela solidão de viver uma experiência incompreendida pelos outros, assim como o próprio Jimmy.
O longa de Sachs compõe uma seleção com grande representação LGBTQIA+. Só na corrida pela Palma de Ouro, oito dos 22 filmes têm personagens queer no centro da trama. Fora de competição, “Teenage Sex and Dream at Camp Miasma”, “Club Kid” e “Clarissa” foram alguns dos filmes mais elogiados dessa edição, todos com personagens queer como protagonistas.
O segundo filme da competição exibido nesta quarta-feira manteve uma temática mais conservadora e também repetida entre seus concorrentes. “A Man of His Time”, de Emmanuel Marre, faz um retrato da Segunda Guerra Mundial e suas consequências, um pouco como “Moulin” e “Fatherland”, também em competição. O longa conta a história de Henri Marre, personagem fictício inspirado no avô do diretor.
Marre é um político e está desiludido com a situação de seu país, a França, controlada pelos nazistas. Ainda que ache o regime de Hitler perigoso, ele acredita cegamente que o general Philippe Pétain, que comandou o país em colaboração com os nazistas durante o período conhecido como governo de Vichy, têm intenções reais de resistir a ocupação alemã e manter o bem-estar dos trabalhadores franceses.
O filme, aliás, parece ser direcionado a um público exclusivamente europeu-ocidental, porque dá pouco contexto histórico —que importa, porque vários diálogos citam nomes de políticos específicos e contém detalhes que podem passar despercebidos para quem não está tão familiarizado com os meandros da política francesa do período.
Passada uma primeira hora mais cifrada, “A Man of His Time” consegue se debruçar sobre o que parece ser o conflito principal do filme. Marre arranja um emprego no gabinete da cidade de Limoges. Com isso, traz a esposa e os três filhos para morarem com ele em uma casa espaçosa.
Aos poucos, porém, sua fé em Pétain e no próprio trabalho começa a desmoronar conforme ele é obrigado a satisfazer pedidos constantes dos nazistas —que são ordens, já que descumpri-las não parece uma opção segura.
Marre, então, manda trabalhadores franceses para a Alemanha, dá combustível para os caminhões que sequestram judeus e faz pouco caso do sumiço de famílias inteiras em direção aos campos de concentração. Ele não é um homem mau, e age de acordo com o que, em sua visão, fará bem aos franceses. E, assim, Marre contribui com o mal.
“A Man Of His Time” parece ser, afinal, um comentário do diretor sobre a facilidade com que o conformismo e a vontade de preservar uma aparente normalidade podem transformar homens comuns em cúmplices da barbárie.
noticia por : UOL
