Da presidência do centro acadêmico da faculdade às mais de três décadas de serviço público, o arquiteto e urbanista Eduardo Cotrim Guimarães buscava mudanças. A democratização a que tanto se referia na juventude continuaria presente em toda a sua trajetória, com a defesa da qualificação dos espaços públicos e do acesso à habitação digna.
Lembrado pela sensibilidade e generosidade, ele via a arquitetura e o urbanismo como meios de transformação social para o Rio de Janeiro —onde nasceu e passou grande parte da vida— e a vizinha Niterói. “Proporcionar maior dignidade” era o seu objetivo, como descrevem a mulher, Martha Urquiza Allemand, e a filha, Carla Allemand Guimarães.
O arquiteto era visto como um interlocutor com seus pares e comunidades locais. Foi grande apoiador do projeto Favela-Bairro, experiência que se tornou referência mundial na melhoria das condições de vida em comunidades precarizadas, criada nos anos 1990 e retomada quase duas décadas depois.
Discreto, o arquiteto deixou algumas de suas ideias e impressões em comentários e publicações pela internet. O “espírito crítico sempre aguçado” e o hábito de acompanhar o noticiário e a política diariamente podem ser percebidos nas colaborações para o blog Urbe Carioca, por exemplo, como na que observa que não espera governantes visionários, mas que ouçam a população.
No mesmo blog, também descreveu o Rio como uma “colcha de retalhos mal costurada”, gerada pelo sucessivo desinteresse de gestões públicas no planejamento urbanístico e por intervenções “desprovidas de cuidados”. Um exemplo eram as estreitas calçadas do largo do Humaitá, “acuadas pelo extenso mar de asfalto”, assim como viadutos, terminais e outras tantas obras que insuficientemente olharam para o seu entorno.
Filho de professores de letras e filosofia, igualmente participou da formação de jovens: no seu caso, novos arquitetos e urbanistas na mesma instituição em que se graduou, a Universidade Santa Úrsula. Também lecionou nas antigas Faculdades Integradas Nuno Lisboa. A trajetória acadêmica é ligada especialmente aos estudos sobre habitação social, tema de sua tese de doutorado.
Cotrim é lembrado pela lealdade e o compromisso com o interesse público. Ainda teve atuação nas principais entidades de sua área: o CAU/RJ (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) e o IAB/RJ (Instituto de Arquitetos do Brasil), nos quais foi conselheiro e diretor. Ambas as organizações emitiram nota de pesar pela morte do arquiteto.
Em seus últimos anos, após a aposentadoria, dedicou-se à escrita, ao desenho, à pintura, aos estudos e aos exercícios físicos. Deixou contos, uma obra já com 180 páginas e o livro infantil “O menino, o papel e a tinta”, lançado em coautoria com Fabiana Abi Rached de Almeida, em 2024, pela editora Ases da Literatura.
O arquiteto morreu aos 69 anos, em 11 de março, em decorrência de um câncer. Deixa a mulher, a quem conheceu ainda na faculdade, e a filha, bacharel em direito com quem era “unha e carne”.
noticia por : UOL
