Todas as manhãs, nos últimos 15 dias, Abbas Haydar tem caminhado por sua aldeia, perto da fronteira sul do Líbano com Israel, tentando gravar “cada prédio, cada fenda, cada flor” em sua memória.
Às vezes, ele vagava sem rumo; outras vezes, parava para tirar fotos com seu celular. “Eu queria deixar registrado que aquilo era nosso —nosso lar e nossa terra— antes que fosse tarde demais”, disse.
Enquanto a maioria dos moradores de Kfar Shouba fugiu para o norte nas últimas semanas —parte de um vasto êxodo provocado por ordens de retirada generalizadas de Israel—, Haydar teimosamente se recusou a partir, marcado pelo deslocamento que sofreu durante a última guerra em 2024 e com medo de nunca mais poder voltar.
Mas na terça-feira, depois que as forças israelenses invadiram várias casas em sua aldeia e sequestraram um morador, ele colocou seus pertences no carro e dirigiu até a cidade vizinha de Nabatiyeh —ainda dentro da zona de retirada, “mas melhor” do que as áreas de fronteira.
Sua ansiedade ecoa por todo o Líbano, onde muitos estão convencidos de que a postura militar cada vez mais agressiva de Israel ao longo da fronteira pode ser um prenúncio de uma invasão em grande escala do sul.
Para muitos libaneses, as ações de Israel reavivaram memórias não apenas de 2024, mas até mesmo de 1982, quando as forças israelenses invadiram o Líbano para esmagar militantes palestinos, sitiaram Beirute e remodelaram o panorama político e de segurança do país por muitos anos.
“Todos os dias eles avançam mais para dentro do nosso território“, disse Abbas, 67. “Eu sei que eles estão vindo e que, desta vez, vieram para ficar.”
O conflito reacendeu no início deste mês depois que o Hezbollah lançou seis mísseis contra Israel em uma demonstração de solidariedade com o Irã —provocando uma resposta feroz por parte de Tel Aviv.
Reforçadas por divisões que chegam à fronteira, as tropas israelenses se concentraram ao longo da linha de demarcação da ONU, que serve como fronteira de fato com o Líbano. Tropas das Forças de Defesa de Israel ocuparam mais de uma dúzia de posições ao longo da linha, sem que se vislumbre um fim claro para os combates. Alguns oficiais israelenses alertam em particular que o conflito entre Israel e o Hezbollah pode durar mais do que a guerra com o Irã.
Por enquanto, as consequências da decisão do Hezbollah estão sendo sentidas mais intensamente nas cidades e vilarejos que pontilham a fronteira sul. Muitas delas, como Kfar Shouba, foram destruídas ou gravemente danificadas durante a última guerra entre Israel e o Hezbollah, que terminou com um cessar-fogo mediado pelos EUA em novembro de 2024.
Alguns moradores nunca voltaram —suas casas foram destruídas ou suas aldeias incorporadas a áreas sob controle contínuo de Israel. Outros voltaram com hesitação, vivendo sob a sombra constante de um novo conflito.
Mesmo além da fronteira, cidades em todo o sul foram esvaziadas quase da noite para o dia por ordens de retirada israelenses. Mohammad Assili, um político local da aldeia de Bint Jbeil que fugiu junto com seus eleitores, disse que sua cidade estava tão deserta que ele não falava com ninguém lá há dias.
Os temores de um retorno à guerra agora se concretizaram, com o sul do Líbano mais uma vez se tornando um campo de batalha ativo e a ofensiva de Israel em todo o país deixando mais de 900 mortos.
Os esforços diplomáticos liderados pela Europa enfrentam dificuldades para ganhar força em meio à falta de interesse da Casa Branca e a um Israel encorajado e pouco disposto a fazer concessões.
Lá Fora
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O Líbano, à beira do colapso durante grande parte de sua história recente, está mais uma vez em crise —um Estado falido, ainda abalado pela última guerra, agora enfrentando uma nova catástrofe humanitária.
Quase um milhão de pessoas foram deslocadas em questão de semanas, e os ataques e ordens de retirada afetaram desproporcionalmente os muçulmanos xiitas do Líbano.
Deslocados de suas casas, eles estão sendo recebidos com desconfiança ou suspeita aberta pelas diferentes comunidades do Líbano —rejeitados por proprietários e expulsos por vizinhos nas comunidades de acolhimento. Isso reflete uma suposição generalizada de que eles têm laços com o Hezbollah, mesmo que muitos não apoiem o grupo, e levanta o espectro de um retorno à violência intracomunitária.
Esvaziado por mais um conflito, o Líbano luta para absorver o choque. Haneen Sayed, ministra de Assuntos Sociais, disse que seu governo está agora sobrecarregado. “Não conseguimos dar conta das despesas, no sentido de que as necessidades são enormes”, disse. “Mal conseguimos atender aqueles que estão nos abrigos.”
Embora algumas comunidades tenham recusado os deslocados, muitas outras os acolheram. “Mas se isso se prolongar, a paciência das pessoas começa a se esgotar. Definitivamente precisamos de mais recursos para que as comunidades anfitriãs não sintam que foram tão prejudicadas”, disse ela, alertando para a tensão crescente.
As Forças Armadas israelenses afirmaram no início desta semana que haviam iniciado o que definiram como operações terrestres “limitadas e direcionadas” no Líbano, com o objetivo de impedir que o Hezbollah atacasse as comunidades fronteiriças no norte de Israel.
Mas as autoridades também vêm discutindo ações mais abrangentes, e uma pessoa a par da operação disse que avançar até o rio Litani, no extremo norte, era uma das “opções” em discussão.
As operações na cidade fronteiriça de Khiam, no sul, onde o Hezbollah e Israel vêm enfrentando-se ativamente há dias e que fica em um eixo estratégico que leva ao Vale do Bekaa, também suscitaram preocupações de que as forças israelenses possam avançar para o nordeste —algo que, segundo duas pessoas a par da situação disseram ao Financial Times na semana passada, estava em discussão.
Yaakov Amidror, ex-conselheiro de segurança nacional de Binyamin Netanyahu e atualmente pesquisador do think tank Jinsa em Washington, disse que, embora a operação atual ainda não constitua uma “manobra terrestre completa”, ela é uma “boa preparação para tal decisão no futuro”.
“Se o Hezbollah não parar de lançar mísseis e foguetes contra Israel, mais forças terrestres entrarão para empurrar o Hezbollah para o norte, a fim de impedir sua capacidade de lançar mísseis antitanque contra comunidades ao longo da fronteira, como fez nas últimas semanas”, disse ele. “E isso pode ser uma preparação para uma grande operação terrestre no futuro.”
Em 1982, Israel foi arrastado para uma guerra de guerrilha pelo movimento nascente do Hezbollah. Desta vez, alertam analistas e autoridades, Israel poderia simplesmente tomar o território, despovoá-lo e garantir, por meio de ataques aéreos, que nenhum morador retorne e que nenhuma operação do Hezbollah possa ser lançada —uma estratégia de “zona de segurança” endossada por membros da extrema direita da coalizão governista.
Israel Katz, ministro da Defesa israelense, declarou na segunda-feira que “centenas de milhares” de residentes xiitas do sul do Líbano “não retornarão” às áreas ao sul do rio Litani até que os cidadãos de seu país estejam seguros.
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Michael Young, do Carnegie Center em Beirute, que morava na cidade quando as forças israelenses cercaram membros da Organização para a Libertação da Palestina antes de expulsá-los do país em 1982, alertou que quaisquer comparações com aquela campanha não são exatas.
“Naquela época, o objetivo de Israel era remover a OLP do Líbano. É possível fazer isso com o Hezbollah? Acho que não. Israel não é capaz de reocupar grandes partes do Líbano como fez em 1982. Não há vontade israelense de mobilizar dezenas de milhares de soldados para ocupar vastas áreas do Líbano.”
Mas Young disse que a intenção de tomar parte do território era clara. “A grande questão aqui é: para que serve essa terra? É uma moeda de troca ou uma zona-tampão?”
Negociações sérias, pelo menos nesta fase, ainda não começaram. O Líbano tem pressionado por um cessar-fogo e chegou a propor negociações diretas sem precedentes, mas Israel rejeitou qualquer pausa nos combates como pré-condição para a diplomacia.
Autoridades libanesas estão tentando angariar apoio internacional para as negociações. “Tudo está em aberto”, disse uma delas, refletindo o desespero do governo para pôr fim ao conflito que se agrava cada vez mais.
Mas o Estado não tem capacidade de controlar as ações do Hezbollah; na verdade, a guerra foi travada desafiando os desejos da maioria do país. E Israel tem criticado repetidamente o governo libanês por sua ineficácia, ameaçando atacar mais infraestruturas em breve se ele não controlar o Hezbollah.
À medida que a pressão aumenta, crescem os apelos para que o governo autorize as Forças Armadas a enfrentar o grupo extremista, algo que há muito vem evitando por medo de desencadear uma guerra civil.
Enquanto isso, as Forças Armadas de Israel lançaram panfletos sobre a zona oeste de Beirute na sexta-feira, instando os libaneses civis a agir para desarmar o Hezbollah e entrar em contato com uma unidade de inteligência militar israelense.
“A Unidade 504 está trabalhando para garantir o futuro do Líbano e de seu povo… se você quiser fazer parte de uma mudança real… estamos aqui para ouvi-lo”, diziam os panfletos.
Young disse: “Os israelenses não se importam se houver uma guerra civil no Líbano. Isso desvia a atenção do Hezbollah para outros lugares. Mas, ao mesmo tempo, isso vai criar grande instabilidade na fronteira norte —você tem que se perguntar se isso é uma boa ideia para Israel”.
Por enquanto, os moradores estão apenas tentando lidar com mais uma turbulência. Fadal Badawi, um pescador de 67 anos da cidade costeira de Tiro, no sul, fugiu de casa durante a invasão de 1982, assim como fez neste mês.
A guerra voltou enquanto Badawi tentava reconstruir a loja de pesca que Israel havia destruído no último dia do conflito anterior, deixando-o sem renda por mais de um ano. “Não estávamos preparados para isso”, disse ele, deslocado mais uma vez. “É guerra atrás de guerra.”
noticia por : UOL
