A guerra contra o Irã pode acabar rápido — o problema começa depois

Se as previsões de Josep Borrell, ex-representante da União Europeia para Assuntos Exteriores e Política de Segurança, se confirmarem, até o final da próxima semana as sirenes terão parado de tocar nas cidades israelenses e nas monarquias árabes do Golfo Pérsico.

A razão: Teerã careceria de capacidade de resposta prolongada aos ataques de Israel e dos EUA, dispondo de apenas entre 2 e 3 mil mísseis — um arsenal considerado insuficiente e de rápido esgotamento.

O problema, contudo, não se resume a mísseis ou à superioridade aérea. A história recente mostra que tentar promover uma mudança de regime pela força militar — e pela imposição de governos alinhados à potência vencedora — pode revelar-se, invertendo a metáfora, um sapato no caminho de uma enorme pedra.

Não há um “Saddam persa”

No Iraque, país de cerca de 435 mil km², a Casa Branca de George W. Bush declarou “missão cumprida” poucos dias depois da entrada dos tanques americanos em Bagdá e da derrubada das estátuas de Saddam Hussein, em abril de 2003. Nos anos seguintes, porém, o país mergulhou no caos: atentados suicidas viraram rotina, cerca de 200 mil civis morreram e quase 4,5 mil soldados americanos perderam a vida.

O Irã, em comparação, pode ser um abismo ainda mais profundo. Com cerca de 1,6 milhão de km², o país tem quase o dobro da população do Iraque (86 milhões contra 47 milhões), maior homogeneidade étnico-religiosa e um sistema de liderança colegiada.

Ao contrário do que ocorria em Bagdá, não há um único “Saddam persa”. O regime não desapareceria com uma simples “decapitação” da liderança — por mais que a “cabeça” do sistema, o aiatolá Ali Khamenei, fosse um dos alvos mais cobiçados do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Mesmo que a cúpula clerical fosse atingida, a estrutura do regime tenderia a sobreviver.

Mísseis devastam e paralisam. Mas, para produzir mudanças profundas em uma nação tão complexa, seria necessário algo mais: desembarcar dos aviões C-17 e dos helicópteros Black Hawk e colocar tropas em solo. A menos que surja uma liderança de oposição interna capaz de poupar esse esforço aos EUA, o cenário tende à estagnação.

Drones kamikazes

“A defesa do Irã não reside nos mísseis, esse é um erro de conceito. Ela reside na capacidade de sustentar resistência ao longo do tempo”, afirmou o almirante reformado Juan Rodríguez Garat. “Se Gaza, uma pequena faixa de terra, conseguiu suportar dois anos de bombardeios, o Irã — que é milhares de vezes maior — pode aguentar muito mais.”

Garat acrescenta outro ponto: “Se os houthis, no Iêmen, conseguiram com recursos limitados interromper o tráfego no Mar Vermelho, certamente os iranianos também poderiam fazê-lo”.

Sobre o arsenal iraniano, o professor Javier Jordán, catedrático de Ciência Política da Universidade de Granada, observa que seu tamanho exato é desconhecido, mas provavelmente é “muito numeroso se incluirmos munições menos sofisticadas, como drones kamikaze”.

A continuidade dos ataques dependeria de dois fatores: o ritmo de uso desses armamentos e a capacidade de interceptação dos sistemas de defesa de Estados Unidos e Israel. Trata-se de uma disputa de desgaste cara e potencialmente longa — que já desperta críticas dentro dos próprios Estados Unidos, devido à redução de estoques militares necessários para outros cenários globais.

Mesmo assim, Teerã possui uma carta estratégica poderosa. Com poucos recursos, poderia provocar um choque na economia global ao bloquear o Estreito de Ormuz, passagem por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.

Segundo Garat, bastaria um veículo com mísseis antinavio posicionado de forma estratégica para atingir um petroleiro no estreito — que em certos trechos tem pouco mais de 30 quilômetros de largura. O impacto seria imediato.

No último domingo, apenas cinco dos 60 navios previstos atravessaram a região. A redução do tráfego elevou o preço do barril — movimento que inevitavelmente acaba refletido nas contas de combustível e energia de milhões de pessoas.

O peso da História

Quando o presidente americano Donald Trump anunciou, em 1º de março, que as operações tinham como objetivo impedir que o Irã obtivesse a bomba atômica, o argumento soou confuso para parte dos analistas. Afinal, em junho de 2025 ele próprio havia declarado que o programa nuclear iraniano fora “arrasado”.

Mais claro foi seu apelo para que a população iraniana se levantasse contra o regime. “Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será de vocês”, afirmou Trump.

A História, porém, pesa. Muitos iranianos lembram que a intervenção americana em 1953 — que derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh e restaurou o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi — acabou abrindo caminho para a Revolução Islâmica de 1979 e para o sistema teocrático vigente hoje.

Há também o precedente do Iraque em 1991. Após a Guerra do Golfo, o presidente George H. W. Bush incentivou xiitas e curdos a se revoltarem contra Saddam Hussein. Quando a revolta começou, porém, os Estados Unidos não intervieram — e o regime respondeu com uma repressão brutal que custou milhares de vidas.

Para cada cabeça cortada, surge outra

Com a opinião pública americana majoritariamente contrária a uma nova guerra no Oriente Médio — e sem autorização prévia do Congresso para uma operação de grande escala —, a administração Trump parece buscar uma “saída honrosa” que possa ser apresentada como vitória.

Mesmo que os caças F-35 interrompam os ataques, é provável que o regime iraniano continue no poder. E, paradoxalmente, ainda mais motivado a desenvolver armas nucleares — seguindo o exemplo da Coreia do Norte, cuja capacidade atômica funciona, na prática, como um poderoso fator de dissuasão.

Para o analista internacional Antonio Rubio, a narrativa de “implantação da democracia” tende a ficar em segundo plano. Washington provavelmente se concentrará em contabilizar instalações destruídas e capacidades militares degradadas.

Do lado iraniano, por sua vez, a derrota militar poderá ser convertida em vitória moral — estratégia já utilizada no passado por líderes como Gamal Abdel Nasser, pelo Hamas e pelo próprio Saddam Hussein.

O almirante Garat resume o dilema: o regime iraniano não depende de uma única figura. “Não é como a Venezuela”, afirma. “O Irã possui uma liderança colegiada, centrada em instituições como o Conselho dos Guardiões e o Corpo da Guarda Revolucionária. É como uma hidra: para cada cabeça cortada, surge outra com o mesmo pensamento — e quase a mesma barba.”

Se esse diagnóstico estiver correto, o tabuleiro pode acabar voltando ao ponto em que estava em junho de 2025: Trump declarando vitória, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pressionado a encerrar a campanha militar e Teerã, silenciosamente, reconstruindo seu arsenal.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanhol: Irán: Y cuando Trump termine, ¿qué?

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noticia por : Gazeta do Povo

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