A Mostra de Cinema de Tiradentes se viu rodeada por fantasmas nesta que foi a sua 29ª edição.
Foi “O Fantasma da Ópera” de Júlio Bressane que abriu o festival numa semana em que a chuva foi persistente, e uma névoa espessa espremeu a serra que ladeia a cidade, compondo uma aura fantasmagórica do festival.
Na cerimônia de encerramento, neste sábado, foi duplamente premiado um filme que tenta exorcizar os fantasmas da ditadura militar. “Anistia 79” levou o prêmio do júri popular e o prêmio Carlos Reichenbach, do júri oficial, como parte da mostra Olhos Livres.
O longa de Anita Leandro revisita imagens de arquivo sobre a ditadura militar. Quase meio século depois da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, as imagens reacendem o debate sobre a impunidade dos torturadores.
Em paralelo, o curta-metragem vencedor da mostra Foco foi “Entrevista com Fantasmas”, dirigido por LK, nome artístico de Lincoln Péricles, que de certa forma a “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, para falar de um cinema que não existe mais, literalmente —a sala virou Casas Bahia.
Da mostra Aurora, dedicado a longas de estreia, venceu “Para os Guardados”, de Desali e Rafael Rocha, num misto de experiências pessoais e de dores relacionadas ao sistema prisional.
Mas em ano eleitoral, é o fantasma da ultradireita que ronda o festival. A possibilidade de um governo hostil à classe artística subir ao poder assombra Tiradentes, prestes a completar 30 anos de existência.
Durante o Fórum de Tiradentes, que ocorreu em meio à mostra para discutir políticas públicas para o audiovisual, vários representantes do governo federal repetiram que é imperativo votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para que o cinema brasileiro continue de pé.
Faltando seis meses para o início das campanhas eleitorais, é esperado ouvir discursos eleitoreiros de autoridades. Mas dizer que o futuro de uma classe depende tanto de uma só figura revela um setor que se equilibra na corda bamba e tem um longo caminho a percorrer para encontrar mais autonomia e perenidade.
Não se trata aqui de se desvencilhar do dinheiro público, mas de haver uma estrutura de financiamento que transcenda os mandatos do poder executivo.
O setor cultural parece querer se mover para esse lado, tanto que colocou na Carta de Tiradentes, fruto do fórum, o sonho da construção de um Sistema Nacional do Audiovisual, que propõe descentralização do poder decisório sobre o destino da verba pública para a cultura.
Talvez o longa mais estrelado da mostra Olhos Livres, o também fantasmagórico “As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, exibido na quinta, põe Silvero Pereira a vagar por uma São Paulo silenciosa e em preto e branco, e se segura em medalhões como Helena Ignez e Carlos Francisco numa noite interminável.
Já a Mostra de Tiradentes se segura em medalhões como Petrobras e Itaú para dar continuidade à sua existência, num interminável ciclo de busca por financiamento. E é assim, ano após ano, há quase três décadas.
Para a edição de 2027, porém, que marca os 30 anos da mostra e, portanto, a sua notável longevidade, não será diferente. “É começar do zero como se eu estivesse fazendo a primeira edição praticamente”, diz a diretora do evento, Raquel Hallack. “Se a gente pudesse pensar numa continuidade que ultrapassasse os governos, a gente teria um projeto estratégico de país para o audiovisual”, disse.
O Fórum de Tiradentes, que nasceu no ano em que o Ministério da Cultura foi revivido dos mortos, colocou novamente como prioridade a regulamentação do streaming, fantasma que assombra os corredores de Brasília há nove anos.
Todo ano, desde 2023, o fórum elabora a Carta de Tiradentes, documento que se coloca como um farol para as políticas públicas para o setor do audiovisual, elencando os principais pontos de maior urgência. Desta vez, diferente de anos anteriores, a carta não falou em números de alíquotas de taxação ou tetos de dedução. Um sinal de cansaço por um lado e de resignação por outro.
Talvez por isso o maior fantasma que assombra Tiradentes e o setor cultural brasileiro seja o da incerteza. Isso tem a ver com o medo da descontinuidade de políticas públicas. E se reflete muito na homenageada do ano, a atriz Karine Teles. Além de gratidão, ela demonstrou cansaço e desgaste com as incertezas na profissão de artista no Brasil. “Aqui a gente não tem nenhuma segurança, você vive nessa angústia toda vez que termina um trabalho”, disse.
Este sábado foi o único dia em que o céu não desabou sobre a cidade —até ameaçou chover, mas não passou de um chuvisco.
O filme de encerramento, “Copacabana, 4 de Maio”, de Allan Ribeiro, acabou cominando com o dia ensolarado. O filme soa como uma espécie de “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, mas entrevistando o público do show de Madonna em Copacabana, em 2024. Neste último, sem fantasmas.
Veja a lista de todos os premiados desta edição.
Prêmio Carlos Reichenbach de Melhor Filme – Mostra Olhos Livres
“Anistia 79” (RJ), de Anita Leandro
Prêmio de Melhor Longa – Júri Popular – Mostra Olhos Livres
“Anistia 79” (RJ), de Anita Leandro
Prêmio de Melhor Curta – Júri Oficial – Mostra Foco
“Entrevista com Fantasmas” (RS/SP), de LK
Prêmio Canal Brasil de Curtas – Mostra Foco
“Grão” (RS), de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa
Prêmio de Melhor Curta – Júri Popular
“Recife Tem um Coração” (RN), de Rodrigo Sena
Menção Honrosa – Mostra Formação
“Diálogo Bulbul” (Sp, RJ, Es, Ba), de Bruno Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos
Prêmio de Melhor Filme – Mostra Formação
“De Barriga para Cima” (ES), do Instituto Marlin Azul e moradores da Comunidade Quilombola de Monte Alegre
Prêmio Abraccine de Melhor Longa – Mostra Autorias
“Atravessa Minha Carne (GO/DF), de Marcela Borela
Prêmio do Júri Jovem – Mostra Aurora
“Para os Guardados” (MG), de Desali e Rafael Rocha
Prêmio Helena Ignez – Destaque Feminino
“Crash” (RJ), de Gabriela Mureb
Prêmio Cinecolor e O2 Pós – Conexão BCM
“Pedra de Raio” (CE e RJ), de Lucas Parente e Pedro Lessa
Prêmio CTAv e The End – Conexão BCM
“Bate e Volta Copacabana” (MG), de Juliana Antunes e Camila Matos
Prêmio Málaga WIP – Conexão BCM
“Pequenas Tragédias” (GO), de Daniel Nolasco
Prêmio Sesc em Minas – Work in Progress – Conexão BCM
“Paisagem de Inverno” (MG), de Marco Antonio Pereira
noticia por : UOL
