O grafiteiro, ativista e empreendedor Mauro Neri é um personagem da cidade que há mais de 20 anos contribui para deixá-la mais bela e despertar a mente de seus habitantes. Faz isso substituindo o cinza das paredes por rostos, casinhas e cores e tem como marca registrada o projeto Veracidade, com símbolos e mensagens de conscientização escritas nos desenhos.
Há murais de Neri na rua Augusta e na rua da Consolação. Outros foram pintados na lateral do Museu da Cidade de São Paulo, no Sesc Itaquera e no Interlagos. Cinco desenhos feitos nas pilastras da parte de baixo do Minhocão são seus. Realizou obras em Porto Alegre, Paris, Mumbai e em dezenas de outros locais.
“Precisamos ocupar os espaços públicos de um jeito artístico, informativo e educativo, transformando a paisagem e diminuindo os muros que segregam”, diz Neri. “A sociedade precisa mudar por meio do acesso à informação, precisa olhar para o lugar certo.”
Seus grafites pintados em empenas cegas (laterais sem janelas de prédios) e seu trabalho gráfico têm características frequentes, como a presença das figuras humanas, de casas e de palavras e dizeres que compõem sua identidade artística. Veracidade, a qualidade do que é verdadeiro, entrou no seu vocabulário em 2002 e começou a aparecer em várias de suas obras, assim como o verbo ver.
“O projeto Veracidade surgiu com essa busca para entender o que as pessoas precisam ler, o que precisam saber”, diz. “É necessário ver a cidade.”
Ele diz que desde que começou a fazer um trabalho autoral passou a querer atuar como ativista. Pensou nas palavras e as incluiu na sua obra usando frases como “o que você precisa ver?”, “O que você pode ver.” ou “Pode haver igualdade”. Com o tempo ficou só o ver, com suas conjugações, e veracidade, que virou uma referência urbana.
Nascido e criado no bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, Neri, de 45 anos, tem visão de periferia, de quem esteve à margem. Começou sua vida recolhendo material reciclável nas ruas e depois vendeu balas nos trens. Fez vários trabalhos temporários até entrar na faculdade de artes visuais aos 21 anos.
Conhece de perto também a dura rotina do pichador e do grafiteiro de estar constantemente na mira da polícia. Neri foi detido em janeiro de 2017, quando Fernando Haddad acabava de deixar a prefeitura e era substituído por João Doria.
Haddad tinha autorizado uma série de grafites nas pilastras do complexo viário João Jorge Saad, o Cebolinha, e Doria suspendeu a permissão e cobriu todos os desenhos com tinta de cal cinza. Mas com um balde de água e um esfregão, Neri decidiu tirar a cobertura de cal de sua obra. Foi levado para a delegacia.
“Eu ia para a delegacia uma vez por ano”, afirma. “Mas no período em que o Doria governou eu fui várias vezes e em três delas fui processado.” A primeira foi a do Cebolinha, a segunda está associada a um grafite no Cemitério da Consolação e na última foi pego pintando um hidrante próximo ao Obelisco do Ibirapuera.
Hoje, Neri participa da coordenação de vários projetos que idealizou, como Niggaz, Imargem e Cartograffiti com olhar periférico e orientação inclusiva. Todos integram arte, educação, comunicação, juventude, meio ambiente e direito à cidade. Ele também movimenta seus negócios se inscrevendo em editais públicos municipais, estaduais e federais, concorrendo para prestar serviços.
Ele diz que, em 30 anos de carreira, fez uma quantidade astronômica de pequenas e grandes obras gráficas e intervenções artísticas em São Paulo e em outras cidades do Brasil e do mundo. Ele afirma que não para, está sempre trabalhando. Costuma fazer grafites quase todos os dias.
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noticia por : UOL
