Uma artista sul-africana está processando o ministro da Cultura de seu país para exigir que possa representar a África do Sul na Bienal de Veneza deste ano com uma obra em homenagem a um poeta palestino falecido —a polêmica coloca em risco a participação do país na exposição internacional, uma das mais importantes vitrines das artes visuais.
O processo, aberto na quinta-feira em Pretória, acusa Gayton McKenzie, o ministro, de agir ilegal e inconstitucionalmente ao ignorar a recomendação de um painel independente de que Gabrielle Goliath, de 42 anos, deveria ser a representante da África do Sul no evento.
A obra planejada por Goliath, “Elegia”, é um trabalho baseado em vídeos no qual cantores homenageariam um poeta palestino morto em um ataque aéreo de Israel.
Embora o governo da África do Sul tenha acusado Israel de cometer genocídio em Gaza, McKenzie afirmou em uma carta, publicada no processo, que “não seria sensato nem defensável” de sua parte apoiar uma obra de arte que comenta os eventos no Oriente Médio quando a África do Sul enfrenta suas próprias “acusações injustificadas de genocídio”. Era uma referência ao presidente americano Donald Trump, que afirmou repetidamente que os fazendeiros brancos na África do Sul são vítimas de “um genocídio”.
Um porta-voz do ministro da Cultura se recusou a comentar o processo, mas McKenzie disse em um comunicado à imprensa que tinha o direito de ignorar a recomendação do comitê de seleção. “Daremos acesso à Bienal a artistas que promovam nosso país”, afirmou. “Essa é a minha posição e não serei intimidado ou envergonhado por isso.”
Durante o evento, que acontece de 9 de maio a 22 de novembro em Veneza, os países apresentam exposições em pavilhões nacionais, além de participarem de uma mostra coletiva principal com obras de arte escolhidas por um curador independente.
A África do Sul apresentou seu primeiro pavilhão em 1950 e, nas últimas décadas, tem enviado regularmente artistas a Veneza. Goliath, cujo trabalho foi mostrado na exposição principal da última edição da bienal, trabalha com vídeo e performance.
No processo, Goliath afirma que encena “Elegia” em diversas formas há mais de uma década. Na obra, cantoras sobem a um estrado e sustentam uma nota cantada pelo maior tempo possível. Uma declaração curatorial da exposição, incluída no processo, afirma que a obra presta homenagem a mulheres e pessoas gays e trans que morreram de forma violenta.
Em Veneza, a obra seria composta por três seções —uma em homenagem a um adolescente sul-africano assassinado em 2014; uma segunda em luto por duas mulheres namibianas mortas pelas forças coloniais alemãs no início do século 20; e uma terceira dedicada ao poeta palestino.
Desde que considerou a “Elegia” de Goliath inadequada para Veneza, o Ministério da Cultura tem buscado um artista alternativo. Na terça-feira, o jornal Art Newspaper noticiou que um coletivo de 30 membros, conhecido como Beyond the Frames, estava em negociações com o ministério para apresentar uma exposição intitulada “Shameless Rebellions: A South African Chorus” no pavilhão do país.
noticia por : UOL
