Temos um espectro do autismo ou autismos?

Temos um espectro do autismo ou deveríamos falar em autismos?

Dada a falta de certezas sobre as raízes do autismo —recentemente evidenciada pela controvérsia do presidente americano, Donald Trump, e o paracetamol—, essa é uma pergunta cuja resposta é quase pessoal.

Costumo fazê-la com frequência para outras mães atípicas ou especialistas como um teste para saber o quanto concordamos com as respostas que estão dadas: para você, o autismo é uma coisa só ou estamos falando de vários autismos?

Em 2013, o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) reuniu o que antes eram diferentes categorias (como a síndrome de Asperger e o que seria o autismo clássico) sob um só guarda-chuva: o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Esse foi um dos principais fatores que fez crescer vertiginosamente o número de diagnósticos, já que pessoas que antes eram diagnosticadas com outras condições passaram a ser diagnosticadas dentro do TEA. Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano), em 2012, tínhamos 1 criança diagnosticada como autista a cada 69; em 2022, a proporção passou para 1 a cada 31 crianças.

Ainda que tenha elevado o autismo a um nível inédito de prioridade em termos de políticas públicas e permitido abarcar quem estava num limbo, o espectro deixou muitas pontas soltas. E existe, agora, uma onda que quer reverter —ou ao menos mudar— como vemos esse guarda-chuva.

A maior ponta solta talvez seja a de não sabermos bem sobre quem estamos falando: sobre uma pessoa que fala poucas palavras e necessita de atenção 24/7 ou sobre outra que articula pensamentos e conhecimentos específicos dignos de um especialista?

É verdade que existem os níveis de suporte e a avaliação sobre comorbidades, que nos ajudam a fazer diferenciações e gradações. Mas, me pergunto —inclusive sobre o que vejo dentro da minha própria casa: será que existe mesmo um traço comum que justifique o espectro? Será que, em determinado momento, as comorbidades passam a ser mais relevantes do que as características próprias associadas ao autismo?

Como mencionei acima, muitos especialistas renomados e ativistas debatem mudanças no diagnóstico de autismo —que, aliás, sempre muda, a cada edição do DSM—, seja para separar de novos os diferentes autismos, seja para dar mais claridade sobre a quem estamos nos referindo (aqui entra a proposta de se falar num “autismo profundo“).

Em dezembro, o Washington Post publicou uma matéria sobre dois estudos científicos que tentaram relacionar manifestações diferentes do autismo a genéticas diferentes. A autora de um dos estudos disse ao jornal que pesquisas passadas sobre o autismo soavam como montar um quebra-cabeças em que as peças não encaixavam bem, mas porque a caixa sempre teve muitos quebra-cabeças misturados.

Ela conclui, segundo o jornal: “existem muitos autismos”.


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noticia por : UOL

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