O termo “Rage bait” (isca de raiva) foi eleito a palavra ou frase do ano pela Oxford University Press, que publica o Dicionário Oxford de inglês. Ela designa conteúdo de mídia social criado com o objetivo de provocar uma reação forte e negativa.
Publicar conteúdo com o objetivo de antagonizar as pessoas pode não parecer uma estratégia inteligente para um influenciador de mídia social. Mas quem publica conteúdo nas mídias sociais pode ganhar mais dinheiro se seu canal tiver um alto nível de engajamento, independentemente de quão positivamente as pessoas estejam respondendo.
Além disso, as plataformas de mídia social usam algoritmos que adaptam o conteúdo que vemos ao que provavelmente nos engajará. Isso não significa necessariamente conteúdo que nos deixará felizes —o algoritmo aprenderá com qualquer envolvimento que tenhamos com o conteúdo, incluindo comentários irritados que possamos postar em resposta.
Mas há coisas que você pode fazer para ajudar a controlar sua reação a esse tipo de conteúdo. Primeiro, porém, você precisa entender por que o “rage bait” é tão eficaz.
Postagens provocativas podem resultar em um número maior de cliques, compartilhamentos e comentários por meio do chamado viés de negatividade, em que emoções negativas, como a raiva, se espalham mais rapidamente e com mais intensidade nas redes sociais.
Isto porque, em termos evolutivos, é mais importante prestarmos atenção a uma situação que causou raiva ao nosso grupo do que a uma situação que criou felicidade. A raiva sugere que é necessário tomar medidas para resolver um problema, enquanto a felicidade sugere que tudo está bem.
Embora as tecnologias de mídia social sejam relativamente novas, as maneiras como entendemos e navegamos pelo nosso mundo não são. Estamos preparados para procurar informações sociais, o que inclui qualquer coisa que indique uma diferença de opinião ou uma possível ameaça dentro de nossos grupos sociais.
No passado, os grupos aos quais pertencíamos normalmente eram locais, onde morávamos —nossos amigos, vizinhos e colegas. Mas o crescimento das mídias sociais significa que agora podemos nos conectar com pessoas de todo o mundo. Isso significa que há muito mais grupos dos quais podemos fazer parte e, por sua vez, caminhos pelos quais a raiva pode nos atingir.
Pesquisas descobriram que as pessoas podem alinhar rapidamente suas opiniões com outras sobre qualquer coisa que provoque uma emoção negativa, o que proporciona outro benefício evolutivo ao oferecer segurança em números contra uma ameaça potencial. Nesse caso, a pessoa que publica o conteúdo provocador assume o papel do vilão da pantomima, contra o qual o público se une para vaiar.
O outro problema é que podemos postar conteúdo ou comentários e obter uma resposta imediata, 24 horas por dia, sem parar. Normalmente, costumávamos ter algumas pausas entre encarar qualquer coisa ou pessoa que nos causasse um sentimento de raiva. Isso nos dava a oportunidade de nos acalmar e refletir sobre o que havia acontecido, mas com a onipresença das mídias sociais pode parecer que não temos mais como fugir da raiva.
Lidando com o ‘rage bait’
Uma boa maneira de começar é estar ciente das motivações por trás dessas publicações. É claro que existem pessoas que publicam conteúdo negativo e acreditam genuinamente no que estão publicando. Mas saber que muitas dessas publicações são feitas apenas para gerar engajamento nos ajuda a recuperar nosso poder sobre essas interações.
Um estudo de 2020 mostrou que dar às pessoas uma compreensão das estratégias de manipulação usadas na mídia as capacitou a resistir a essas técnicas.
Pense na pessoa que publica conteúdo como um ator interpretando um personagem, cujas ações são motivadas mais pelo desejo de fama —seja ela boa ou má— do que por crenças pessoais.
Quanto mais evitarmos nos engajar com qualquer conteúdo que induza raiva em nós, menos ele será apresentado a nós. Ao contrário da mídia tradicional, como a TV, não precisamos ser um público passivo nas mídias sociais. Em vez disso, podemos influenciar e moldar as mídias sociais por meio do que escolhemos nos engajar ou não.
Esperança em vez de raiva
Apesar da velocidade e da força com que a raiva pode se espalhar pelas mídias sociais por meio do “rage bait”, há pesquisas surgindo que sugerem que as pessoas podem ser levadas a refletir sobre o conteúdo da mídia projetado para provocar raiva antes de responderem. Isso pode diluir a influência do raige bait.
Uma vantagem das mídias sociais em comparação com as interações offline é que elas são, por natureza, publicamente visíveis. Isso significa que os pesquisadores podem entender mais facilmente o que está acontecendo nessas plataformas, incluindo como o “raige bait” está sendo usado para impulsionar engajamentos.
Isso também pode nos ajudar a entender melhor como ajudar as pessoas a controlar o conteúdo das redes sociais ao qual estão expostas, para que possamos nos beneficiar dos aspectos positivos dessas tecnologias sem sermos atraídos por conteúdos negativos publicados exclusivamente com fins lucrativos.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original
noticia por : UOL
