Calvário ou metaverso da Crefisa no INSS?

Ao motivar a suspensão parcial dos serviços da Crefisa em todo o Brasil, o presidente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), Gilberto Waller Junior, justificou que o banco representava um “verdadeiro calvário” para os aposentados. Em nota, o instituto invocou uma lista extensa de irregularidades apuradas em diferentes cidades, com base em reclamações de Procons, Ministério Público, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e manifestações apresentadas diretamente pelos beneficiários na ouvidoria do INSS. Ao se pronunciar sobre o assunto, paradoxalmente, o “banco Crefisa reitera que não praticou qualquer irregularidade”.

Tem algo de errado nesse antagonismo de narrativa. De um lado, o INSS faz acusações graves contra a Crefisa, a ponto de suspender leilão bilionário; do outro lado, o banco nega categoricamente qualquer irregularidade, como se nada acontecesse.

O calvário descrito por Waller, em entrevista à CNN, consiste em “dificuldade no atendimento, ausência de caixa eletrônico, impossibilidade de portabilidade, não ter o numerário suficiente para poder pagar os aposentados, fazendo com que eles precisem ir várias vezes na agência da Crefisa para poder receber empréstimos com juros mais altos, ao invés de empréstimos mais baratos”. Waller arremata que o “INSS está atuando em defesa dos aposentados. Aquele que tratar mal [o aposentado], e que não tratar com dignidade, não merece prosperar com o contrato”.

Antes dessa suspensão nacional, a Crefisa já tinha sido proibida pelo INSS de fazer empréstimo consignado, pois havia acusação de venda casada. Há também denúncias de coação de abertura de contas, portabilidade não autorizada e falta de estrutura.

Em nota, a Crefisa diz que “recebeu com surpresa as informações divulgadas” e que “vem prestando regularmente o serviço de pagamento de benefícios desde 2020”.

Ou o presidente do INSS está alucinado, a ponto de comparar o atendimento dos aposentados com o sofrimento enfrentado por Jesus Cristo, ou o banco abusou do cinismo, quando publicamente reiterou “que não praticou qualquer irregularidade”, como se vivesse numa realidade paralela –uma espécie de metaverso onde inexiste aposentado insatisfeito.

A Crefisa lembrou bem que presta serviço ao INSS desde 2020. De lá para cá, não foi o banco quem regrediu drasticamente na qualidade dos serviços. A Crefisa apresenta problemas faz tempo. Em época de expiação pública com tanta corrupção, o que mudou foi a tolerância do INSS e a preocupação do governo em recompor sua imagem institucional. Se o INSS não tivesse pisado tanto na bola com o escândalo dos descontos indevidos, a Crefisa estaria atuando tranquilamente.

Aliás, por ocasião do último leilão em 2024, o INSS já tinha condições de avaliar a reputação da Crefisa. E aumentar o sarrafo qualitativo no leilão. Ao contrário disso, o instituto não foi tão criterioso na escolha da terceirização do serviço público. Agora, precisou tomar medida drástica.

Outro erro do INSS foi permitir no edital que uma empresa assumisse praticamente o monopólio da folha de pagamento. Empenhar todas as fichas numa aposta é arriscado. A descentralização da terceirização seria mais democrática e menos arriscada. Evitaria ao menos a discussão entre calvário e metaverso.


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noticia por : UOL

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