As cidades estão cada vez mais quentes. O concreto das edificações e o asfalto das ruas fazem dos centros urbanos verdadeiros sistemas de aquecimento, absorvendo e retendo todo o calor que recebem ao longo do dia. Quanto mais cimento e menos vegetação, mais elevada a temperatura.
O resultado dessa correlação é bem conhecido: formam-se as chamadas ilhas de calor, que afetam a qualidade de vida e colocam em risco a saúde das pessoas. Quando associada às ondas de calor – momentos em que as temperaturas ficam muito acima da média por dias seguidos –, a alta temperatura é responsável por milhares de mortes todos os anos, sobretudo entre crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social.
A boa notícia é que podemos buscar soluções na natureza: a criação de áreas verdes pode ajudar a enfrentar as altas temperaturas urbanas. A vegetação, em especial as árvores, ajuda a amenizar o calor ao proporcionar sombra, e também por meio da evapotranspiração, um processo pelo qual as plantas (e o solo) liberam vapor d’água, umedecendo e resfriando o ar.
O mais interessante é que áreas verdes promovem uma série de outros benefícios para as pessoas – os chamados serviços ecossistêmicos –, contribuindo não só para reduzir a temperatura, mas também para controlar enchentes, melhorar a qualidade do ar e aumentar o bem-estar da população de maneira geral.
Multiplicar as áreas verdes parece, então, um caminho óbvio. Mas como criar novos espaços verdes em cidades já consolidadas?
Bem, a ciência tem demonstrado que pequenas áreas verdes podem ser uma ótima alternativa. No meu mestrado em ecologia na UFRJ, pesquisando o subúrbio do Rio de Janeiro, verifiquei que tais áreas são capazes de reduzir as temperaturas em até 1ºC, tendo um efeito significativo no microclima dos bairros.
Descobri, inclusive, que quintais arborizados já atuam como uma das principais áreas verdes da região: há praticamente duas vezes mais árvores nos quintais do que nas ruas e praças. A importância dos quintais para diminuir a temperatura, entretanto, não está ligada apenas à quantidade de árvores, mas sobretudo à sua distribuição na paisagem urbana.
Isso porque a sombra, pelo menos no Rio de Janeiro, é fundamental para amenizar as altas temperaturas. Por se tratar de uma cidade muito úmida, típica de clima tropical, o efeito do resfriamento pela evapotranspiração é menos significativo. Por estarem mais espalhados pelos bairros e contarem com mais vegetação, os quintais oferecem mais sombreamento, e por isso têm um papel de destaque no resfriamento do subúrbio.
A solução dos problemas ligados às ilhas de calor, portanto, não está na criação de áreas verdes de qualquer maneira e em qualquer lugar, mas na compreensão de qual estratégia funciona em cada contexto. No caso do subúrbio carioca, e em outras áreas tropicais e úmidas, as soluções mais eficazes são aquelas que ampliam as áreas sombreadas.
Implementar áreas verdes urbanas vai muito além de embelezar os locais: é uma questão de saúde pública e qualidade de vida, principalmente diante de um cenário de mudanças climáticas e aquecimento crescente. Quintais arborizados podem fazer uma enorme diferença em regiões densamente povoadas e muitas vezes esquecidas pela gestão urbana, podendo ser uma estratégia eficiente de redução da temperatura. Valorizar esses pequenos espaços é um caminho para construir cidades mais frescas e acolhedoras e cuidar das pessoas.
Texto escrito pelo doutorando em ecologia na UFRJ Carson Silveira e revisado pelos pesquisadores André Dias (UFRJ) e Nuria Pistón, da Universidade de Granada (Espanha).
O blog Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e do blog.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
noticia por : UOL
